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domingo, 29 de junho de 2008

As muitas vidas de Valêncio Xavier

Foto: Cristiane Lemos

Os cineastas Pedro Merege e Beto Carminatti com Valêncio Xavier (ao centro) e seu fusca em foto de 2004: paixão pela cultura

Aos 75 anos, escritor radicado em Curitiba ganha cinebiografia, adaptação de sua obra para as telonas e versão de seu livro mais famoso para teatro

Rafael Urban
Equipe da Folha*


Marcos Borges
Beto Carminatti já pensa em um terceiro longa-metragem: ‘A vida e obra dele são muitos filmes


Marcos Borges
Gravação na Cinemateca de Curitiba tomada pelos amigos e familiares que vão ajudar a reconstruir em filme a memória de Valêncio Xavier

Beto Carminatti, como todo adolescente típico dos anos 70, não era dos mais silenciosos quando assistia a um filme no cinema. Na Cinemateca do Museu Guido Viaro, criada em 75 e mais tarde, em 98, rebatizada como Cinemateca de Curitiba, Carminatti ia com freqüência com seu irmão Rui Vezzaro e as respectivas namoradas. Era bagunça na certa. ''E o Valêncio não curtia isso. Para ele, cinema era algo sagrado, que não permitia essas molecagens'', conta Carminatti. O Valêncio de sua frase é, de batismo, Valêncio Xavier Niculitcheff, o homem por trás da criação da Cinemateca, espaço que deu origem a toda uma geração de cineastas.

''Com toda e absoluta certeza, esse grupo, conhecido como Geração Cinemateca, não existiria sem a atitude de Valêncio. O que ele fez foi um ato heróico'', enaltece um dos expoentes do grupo, o cineasta Fernando Severo. O ato de heroísmo foi promover a criação de um espaço cultural dentro da prefeitura da cidade, com poucos recursos e uma programação vasta. ''Vi diversas retrospectivas e pela primeira vez muitos dos filmes do Cinema Novo. E lá tive aula de montagem com o Peter Przygodda, editor dos filmes do diretor alemão Wim Wenders, e de direção com (os cineastas brasileiros) Ozualdo Candeias e o Rogério Sganzerla'', lembra.

Xavier não é apenas o criador do espaço que deu abertura a toda uma geração do cinema paranaense. É também um escritor de reconhecimento nacional, celebrado a partir de 98, quando sua obra passou a ser editada pela Companhia das Letras. ''O Mez da Grippe e Outros Livros'', escrito desta forma, com grafia de época, reúne uma série de trabalhos e foi listado entre os mais vendidos da Revista Veja.

''Ele já tinha sentido esse reconhecimento antes, quando foi para São Paulo, onde escreveu no Estado e na Folha. Foi aí que ele se deu conta do quanto era admirado'', explica a filha de Valêncio Xavier, a engenheira de alimentos Ana Pasinato Niculitcheff, 35. ''Meu pai sempre falou da dificuldade de ser reconhecido em Curitiba e entendia isso como uma característica do povo daqui.''

Há três meses nasceu Laila, filha de Ana e a primeira neta de Valêncio. ''É só uma pena que ele não esteja bem para curtir esse momento. O Alzheimer faz com que tenhamos de dividir as atenções entre ele e a pequena.'' Depois do diagnóstico, em 2002, Valêncio Xavier ainda escreveria um conto publicado no livro ''Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua e Outros Livros''.

Xavier veio para Curitiba em 68, para trabalhar no Canal 6, deixando para trás a São Paulo da infância, retratada no livro ''Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentido'', e o emprego com Sílvio Santos. Na época, escrevia para os programas do apresentador que comprava horários nas TV Globo e Tupi. A função incluía roteirizar, ao lado de Tulio de Lemos, ''Namoro na TV''. ''Mas meu pai não se considerava paulistano. Ele dizia: 'Sou curitibano'. E por isso mesmo escreveu sobre a cidade'', lembra a filha Ana.

Em ''O Mez da Grippe e Outros Livros'', ele retrata o surto da gripe espanhola na Curitiba de 1918. Usa de imagens de arquivo, jornais da época e trechos que ele mesmo escreveu e que descrevem a trajetória de um estuprador. A estética não-usual em que combina imagem e texto é uma marca de sua obra. ''Ele foi dos escritores precursores da multimídia'', comenta Cristovão Tezza, escritor nascido em Lages (SC), mas que mora no Paraná desde os dez anos de idade.

A opinião de Tezza é compartilhada pelo professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Paulo Venturelli. ''O trabalho de Valêncio é extremamente de vanguarda. E quebra a estética realista, marca da literatura brasileira atual.''

Venturelli entende que Xavier é um autor também reconhecido no Paraná. ''Há muitos alunos de mestrado e doutorado escrevendo teses sobre a sua obra'', diz. ''Pela sua inquietude e preocupação metalingüística, se destaca dos demais. Valêncio Xavier é um autor de ponta.''


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Biografia e adaptação para longa-metragem

De freqüentador assíduo da Cinemateca, nos anos 70, Beto Carminatti virou cineasta e leitor compulsivo da obra de Valêncio Xavier. ''Ele escreve como se estivesse fazendo o roteiro para um filme.'' Carminatti levou ao pé da letra a sua afirmação e no lugar do roteiro levou o livro ''O Mez da Grippe e Outros Livros'' para o set de filmagem na adaptação da obra que realizou ao lado de Pedro Merege, também discípulo do escritor e cineasta.

O filme, que já está pronto, deve ser lançado no segundo semestre. ''Estava preocupada, pois apesar de a obra do meu pai ser bastante cinematográfica, achava que era impossível de ser adaptada ao cinema. Mas fiquei orgulhosa. É um filme que carrega o clima dos livros'', comenta Ana Pasinato Niculitcheff, filha do escritor.

O longa ''Mystérios'' nasceu da parceria com Merege, com quem Carminatti já tinha trabalhado no belo curta ''O Mistério da Japonesa'', também adaptado da obra de Valêncio. O cineasta, porém, não quis parar por aí e já está filmando um segundo longa. Intitulado ''As Muitas Vidas de Valêncio Xavier'', o filme é uma biografia sobre o escritor.

Há três anos, com a pesquisadora de cinema Solange Stecz, gravou algumas cenas com Valêncio em sua casa. O material será somado àquele que Carminatti está realizando agora.

''A cena de abertura é a Cinemateca sendo tomada pelas pessoas que vão ver os seus filmes e, depois, através de depoimentos, reconstruir a história do Valêncio'', explica o diretor.

A pesquisadora Solange Stecz fala com carinho de Xavier. ''Quando ainda estava na faculdade de Jornalismo, ganhei um concurso de crítica na Cinemateca. O prêmio era um livro de cinema. Fui conversar com Valêncio e lhe disse que queria o 'Curitiba de nós', escrito por ele e ilustrado pelo Poty (Lazarotto). Ele gostou tanto daquilo que não apenas ganhei o livro como o cargo de estagiária.''

Harry Luhm, 78 anos de idade e boa parte deles dedicados ao cinema, conheceu Valêncio quando o escritor foi diretor do Museu da Imagem e do Som (MIS), nos anos 80. ''Ele era extremamente dedicado e um tanto quanto temperamental'', conta.

O jeito forte e por vezes ríspido de lidar com as pessoas é lembrado pelo colega Fernando Severo. ''Como todo gênio, ele tinha os seus rompantes.'' Luhm recorda de algumas noites que Valêncio passou em sua casa telecinando o filme argentino ''Tango'', o que foi feito debaixo de muita discussão. ''O Valêncio sempre tinha razão e eu discutia com ele por achar que eu tinha mais razão, mas ele nunca concordava.''

No projeto do documentário, Carminatti ainda propõe uma viagem a Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo para gravar depoimentos de personalidades como José Rubens Siqueira, Jean-Claude Bernardet, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho e Arnaldo Antunes; pessoas que tiveram contato com Valêncio Xavier ou que têm uma relação forte com a sua obra. O cineasta pretende ainda restaurar trechos dos curtas de Valêncio a serem utilizados no longa.

A obra cinematográfica do paulistano radicado em Curitiba foi toda realizada de maneira independente e com condições técnicas simples. ''A lentidão da tecnologia não alcançava a velocidade de seu raciocínio'', comenta Carminatti. (R.U.)


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'Grippe' no teatro

Não é apenas no cinema que a obra de Valêncio Xavier ganha destaque. No dia 24 de julho, estréia em Curitiba ''Mez da Grippe'', no Teatro Novelas Curitibanas. No palco, a Pausa Cia. de Teatro, companhia jovem, criada em 2005, busca a sensualidade no texto de Xavier.

''E como faz para levar isso ao teatro? Essa resposta a gente ainda não tem'', comenta o ator da companhia Rodrigo Ferrarini. ''Consideramos o (Paulo) Leminski e o (Dalton) Trevisan, mas foi na obra de Valêncio que encontramos o desafio maior.'' O trabalho será dirigido pelo carioca Moacir Chaves, que Ferrarini considera o melhor diretor de atores do País. (R.U.)


* Reportagem originalmente publicada no Caderno Folha 2 do Jornal Folha de Londrina, do dia 29/06/2008.

Sobre o texto: o “Mez da Grippe” é arrebatador. A reportagem é a minha primeira colaboração ao Folha 2, caderno de cultura do jornal.

Ponto de partida: ler “Mez da Grippe” durante a faculdade foi algo incrível. Me dava conta ali que outra literatura era possível. Mais tarde, ainda na universidade, descobri que Valêncio não era apenas um baita escritor, mas o grande responsável pela Cinemateca de Curitiba. Aumentou aí a minha curiosidade de saber um pouco mais sobre sua vida. As filmagens da cinebiografia concluíram com chave de ouro essa idéia.

A reportagem: aproveitei para ler as obras de Valêncio que ainda desconhecia. Quando fiz as primeiras entrevistas, ainda por telefone, uma questão começou a martelar minha cabeça. Merege, Solange, Severo e mesmo Carminatti me sugeriram que eu não deveria citar a doença que acomete Valêncio desde 2002: o Mal de Alzheimer. “A família não gostaria de ver isso publicado”, me disseram. Carminatti chegou a propor que eu conhecesse Valêncio, o que não foi aceito pela família. De algum modo, já estava resignado que a família não iria dar um depoimento.

No dia 24 de julho, uma terça-feira, os ventos mudariam de direção. Fui acompanhar a gravação dos primeiros depoimentos de “As muitas vidas de Valêncio Xavier” – título do qual me aproveito e utilizo na matéria. A Cinemateca estava tomada não apenas pelos amigos e conhecidos de Valêncio, mas por Ana, sua filha, com a neta Laila no coloco. Ela estava um tanto receosa, mas topou falar comigo numa boa. Não toquei no assunto da doença de seu pai, mas, por alguns momentos, ela citou o assunto, comentando que tinham de dividir as atenções entre ele a pequena Laila. Conversamos por um bom tanto, em que ela me falou de como era ser filha de Valêncio Xavier. Escrevi um trecho sobre a conversa, que acabou cortado pela editora da versão final (afinal de contas, a página de jornal tem seus limites físicos), e que reproduzo abaixo:

Eu queria um pai normal
Quando era criança, Ana Pasinato Niculitcheff escutava alguns nomes estranhos nas constantes conversas que seu pai tinha ao telefone: Polanski, Visconti e Saura. Pouco mais tarde, se encantaria com a exibição de “Bodas de sangue”, na Cinemateca. Depois, viveria próxima daquele universo, chegando a trabalhar na bilheteria de um dos cinemas administrados pelo pai. Quando adolescente, estava certa de uma coisa: queria um pai médio, um pai normal. “Eu achava que se ele fosse advogado, médico ou dentista não passaríamos tanta dificuldade”, conta, uma vez que Xavier não entrava apenas com a paixão e dedicação em seus projetos como com o dinheiro do próprio bolso.

Ana sentia-se livre para fazer suas escolhas. Conta que seu pai nunca insistiu para que visse um filme ou lesse uma obra do escritor argentino Jorge Luis Borges. “Eu falava: ‘Pai, faz a minha tarefa da escola?’, e ele me dizia: ‘Filha, você tem que aprender sozinha’.” Na adolescência sentiu a pressão por ter um pai especial, mas de uma coisa estava certa: queria trilhar um caminho diferente. “Olhava para ele e pensava. ‘Não quero ser comparada a você.’ Também não queria ser apenas uma versão medíocre do que ele era.” Ana acabou optando pela engenharia de alimentos. No mundo das artes, chegou a flertar com a fotografia, o que deixou o pai bastante animado.

O que parecia um fardo, mais tarde Ana percebeu como uma dádiva. “Hoje dou graças a Deus por ter nascido nessa família. Noto que o que há de melhor em mim eu aprendi com ele.” (R.U.)

Depois, tirei algumas dúvidas com Ana pelo telefone. Sua mãe, dona Luci, não quis dar entrevista. Mas a filha fez a ponte, repassando algumas perguntas simples. Eu precisava saber qual a época que tinham vindo em definitivo para Curitiba. A voz de dona Luci, que eu escutava ao fundo da ligação, lembrava dos detalhes. Falei de um livro que estava buscando (“Rremembranças...”) e Ana me disse que eu poderia buscá-lo em sua casa no dia seguinte, pois ela tinha um exemplar para me dar. A sala de estar da casa de Valêncio Xavier, no bairro Ahú, é pequena e aconchegante. Nas paredes, algumas pinturas e duas gravuras do amigo Poty. Ana chega e se diz preocupada por me fazer esperar. Eu, do lado de cá, estava feliz por ela me dar a oportunidade de estar ali. Ela me apresenta o livro ''Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua e Outros Livros'', o último publicado por Valêncio e me diz que aquela cópia é para mim. Lamenta por Valêncio não poder autografá-lo.

“Uma coisa sobre esse livro é que o meu pai queria que tivesse sete contos, pois tem um em que ele trabalha com o número 7. Por isso, ele escreveu o conto ‘Coisas da noite escura’. É o único publicado e escrito depois do diagnóstico da doença. E, que me lembre, é a primeira vez que conto isso para alguém.” Ana assentiu: sim, aquela era uma informação que poderia estar na matéria. Fiquei triste, pois, na edição, parte do trecho acabou cortado e o nome do conto acabou ficando de fora. “Coisas da noite escura” encerra-se assim: “O padre tina rosto cinzento e os olhos vermelhos, as unhas compridas e afinadas na ponta, isso tudo me deixou assustado e resolvi sair: ‘Boa noite senhor padre, vou para o hotel’. ‘Não, não vai. Vai ficar aqui’, disse ele. E me matou, eu Valêncio!

Estou morto.”

“Rremembranças” é de algum modo, um retorno ao “Mez da Grippe”. Ana ainda me conta que “Macao”, um dos contos do livro, é um dos favoritos de seu pai. Das coisas que não couberam na página de jornal, essa matéria foi pródiga. Foram muitos depoimentos interessantes que ficaram de fora – como os de Eloi Pires Ferreira, Pedro Merege ou mesmo outros trechos de Severo, Carminatti e Solange. Tentei contato com a editora que levou Valêncio à Cia. das Letras, mas não consegui falar com ela. Por alguma razão que desconheço, ela não topa falar do assunto.

Ainda me restava a questão que me atormentava. Conversei com a editora da sucursal, Drica, que falou: “Rafael, se não aparece na matéria o porquê de ele não dar um depoimento, isso só chama mais à atenção das pessoas.” Matéria terminada, eu liguei para Ana, filha de Valêncio. – Olá Ana. – Ah! Oi, Rafael. – Ana, gostaria de citar a doença de seu pai na matéria, mas quero que seja algo sutil. Você topa que eu leia o trecho para você e você me diz se está razoável? – De acordo. – (aqui eu leio o trecho...) – Rafael, está respeitoso. Gostei sim. Pode colocar (...) – assim, um peso de algumas toneladas deixou o meu peito.

Repercussão: Eduardo Baggio, cineasta, amigo e professor de cinema, leu a matéria e comparou o trabalho ao de um cronista, relatando o seu tempo – idéia que, por sinal, me apetece. Sugeriu a leitura das crônicas jornalísticas de Rubens Braga. Severo e Solange leram e gostaram da matéria, sem maiores exaltações. A editora do caderno Folha 2, de Londrina, Phoenix Finardi, ficou um tanto furiosa com o tamanho da reportagem que enviei. Por um engano, contei errado os caracteres e ultrapassei uns 30% o permitido – o que levou ao corte do trecho que reproduzi acima e a cortes no box sobre o longa, especialmente trechos em que ambientava a gravação. Quando devolvi os livros que Ana me emprestou (além do que ela me deu ela deixou comigo um livro sobre a história da TV no Paraná e outro sobre a Cinemateca de Curitiba, que reproduz a bela carta de fundação), deixei um exemplar do jornal com ela. Porém, desde então não nos falamos. Não sei como a família recebeu a reportagem.

Beto Carminatti achou tenebrosa a escolha de sua foto, com uma lâmpada sob seu rosto e que abre a página de jornal. "Os amigos do norte (do Estado) me ligaram tirando sarro, dizendo que parecia que eu tinha saído nas páginas policiais", me disse Carminatti ao telefone bastante entristecido. Quanto ao texto, ele julgou que "tentou tratar de diversos assuntos, mas que ficou bacana", comentou, por fim, sem muita exaltação. "Cara, fiquei tão abalado com a foto, tão chateado, que nem dei muita bola para o texto. E não foi um, nem dois, muita gente me ligou falando da imagem. Confiei no fotógrafo; na hora de fazer a foto, não achei que ele cometeria tamanha infelicidade."

Erros, lapsos e confusões: a grafia de época de ''Rremembranças” acabou ficando sem o segundo “r”. Tinha avisado a editora sobre “Mez da Grippe”, mas não deixei claro que a grafia não usual também era o caso do outro livro.

Para completar, segue um pequeno quadro com as obras de Valêncio Xavier publicadas pela Cia. das Letras:

"O mez da grippe e outros livros"
328 páginas, Companhia das Letras (1998), R$ 59

"Minha mãe morrendo e o menino mentido"
224 páginas, Companhia das Letras (2001), R$ 53

"Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros"
144 páginas, Companhia das Letras (2006), R$ 42,50

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Aos pés da catedral

Jovem cineasta paranaense adapta para vídeo poema sobre a vida noturna na Rua Cruz Machado

Rafael Urban
Equipe da Folha*

Mauro Frasson
O cineasta Terence Keller enquadrado no plano final de seu filme: a catedral deformada pelo vidro curvo do tubo do ligeirinho


‘‘louca, brilhante, sem fôlego
rua-vício, rua-oximoro
de não ir à parte alguma
de uma miséria ancestral
a cruz machado termina
ao desenlace da esquina
nos pés de uma catedral.’’

Pouco antes dos versos de abertura de seu poema ‘‘Balada da Cruz Machado’’, reproduzidos acima, o poeta curitibano Rodrigo Madeira, 29 anos, cita o escritor francês Charles Baudelaire. ‘‘Tem piedade, satã, desta longa miséria’’. A noite, na rua-símbolo do tráfico de drogas e da prostituição no centro de Curitiba, é representada de maneira poética, mas sem concessões pelo jovem que ganhou o prêmio Helena Kolody de Poesia, em 2006.

‘‘alguém além de Deus e

da polícia e taxistas
e putas e vigaristas
cafetões e travestis
sabe que depois das 20
nas calçadas do acinte
beijam latas os guris?’’


O crack, fumado nas latas citadas pelo poeta, é um dos temas centrais na adaptação, também poética, que o cineasta Terence Keller, 30, faz do texto do amigo Madeira. O filme, também batizado de ‘‘Balada da Cruz Machado’’, foi um dos oito projetos aprovados no Edital de Vídeo Digital, do Fundo Municipal de Cultura, em 2007, recebendo R$ 10 mil para a sua execução. ‘‘Minha intenção é apresentar essa realidade e não um juízo de valores’’, explica Keller. ‘‘Gostei do poema e quero dividir isso com as pessoas. E como, infelizmente, as pessoas não lêem poesia, o audiovisual é o meio que eu acredito que possa alcançar um público maior.’’

‘‘pedra pedra pedra pedra

quem dentre vós que estiver
sem pecado
que fume a primeira pedra.’’


No início do ano passado, Keller conversou com um amigo de Castro, interior do Estado, que lhe disse que lá a situação em relação ao tráfico e consumo de crack estava feia. ‘‘Ele me alertou: ‘Aqui na cidade, as coisas estão difíceis. Especialmente na periferia’.’’ O cineasta comentou sobre essa conversa com o amigo Madeira e, no dia seguinte, recebeu o poema em seu e-mail. ‘‘O texto me impressionou. Ainda que agora com o crack a troca seja ao máximo de saliva e não haja troca de sangue, como nos picos (de cocaína) nos anos 1990, eles (os usuários) estão definhando.’’

A mesma impressão tem um dos donos do restaurante Acrótona, casa de sopas que funciona há 34 anos na Cruz Machado e um dos apoiadores do filme. Depois de trabalhar por 18 anos como barman e depois como gerente, Marco Antônio Pereira comprou o estabelecimento. ‘‘A gente vê aí. As prostitutas chegam lindas. Você dá três meses e a menina está um lixo. Isso (o crack) veio para arrebentar’’, e ele completa. ‘‘Elas vão secando. Ficam sujas, mal-cheirosas. Um descuido total, que elas não vêem, mas, para nós, que estamos observando, nós enxergamos tudo.’’

Tensão nas gravações

As filmagens do curta, que aconteceram entre os dias 10 e 13 de abril, tiveram momentos de tensão. Ao gravar o plano final do filme, uma tomada em que a Catedral da Matriz aparece deformada através do tubo do Ligeirinho na Tiradentes, às 4 horas da manhã de um sábado, a equipe foi ameaçada. ‘‘Nos sentimos seguros durante toda a filmagem e tivemos o apoio de diversos comerciantes da região, mas aquela noite foi tensa.’’

Primeiro, a disputa entre dois grupos de traficantes, que arremessavam uns nos outros as pedras do petit-pavé quebrado pela reforma da Praça Tiradentes. Depois, foram alertados por usuários de que estar com uma câmera era sinônimo de problemas.

Mas a noite ainda traria outras surpresas. Outro grupo, de cinco pessoas, passa pelo tubo do ligeirinho batendo pedaços de madeira no chão e anunciando. ‘‘Se alguém filmar a gente, vão levar ripada.’’ A equipe de filmagem insiste, e segue dentro do tubo na gravação da imagem da catedral. Dois da turma dos pedaços de pau retornam, o que faz com que o cineasta Terence Keller saia para mostrar aos que o ameaçavam o trecho do roteiro que anunciava ‘‘plano da catedral através do tubo do ligeirinho.’’ ‘‘Pô, agora você me convenceu’’, respondeu o líder do grupo.

‘‘pela praça tiradentes

desaguadouro e monturo
de homens sem futuro
traficantes e usuários
usuários traficantes
consumindo a criptonita
qual se todas suas vidas
consistissem num segundo...’’


Num dos planos do filme, um dos atores sobe a Saldanha Marinho descalço, como se tivesse trocado o calçado por droga. Na seqüência, o jovem apareceria fumando crack. ‘‘Só que, na hora em que estávamos filmando a cena, um garoto de 14 anos, descalço e de dedo queimado, veio conversar conosco. Ele me perguntou: ‘Agora ele vai fumar, né?’.’’

O encontro da ficção, da realidade poetizada com a nua e crua do usuário que viu uma cena e entendeu o filme, fez com que Keller refletisse. ‘‘Mesmo contra a vontade do editor, que diz que nem todo mundo vai compreender o que esse garoto entendeu, vou tirar o plano do menino fumando. A sugestão é muito mais forte.’’

Como conclusão da experiência do trabalho que fica pronto entre agosto e setembro, Keller, também responsável pelo Díinamo, ponto de encontro dos cineastas paranaenses às quartas-feiras, é enfático. ‘‘A única coisa que percebi é que esse universo é muito mais acessível e real do que parece. Para nós que vivemos o mundo diurno, parece distante’’, diz. ‘‘Mas essas pessoas que estão lá pensam, sentem e têm opiniões sobre as coisas. E sabem muito mais do que imaginamos sobre as drogas. Afinal, são elas que vivem o problema e que são as maiores vítimas delas.’’

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‘Eles lá e nós aqui’

Rafael Urban
Equipe de filmagem e ator na esquina das ruas Cruz Machado e Ermelino de Leão: encontro da realidade e ficção

''Antes, não tinha shopping e lugar para sair à noite em Curitiba. A turma vinha toda para cá. Quando abriu o (Shopping) Muller (1983), caiu o movimento. E, quando abriram os bingos, caiu de vez'', comenta Marco Antônio Pereira, proprietário da casa de sopas Acrótona desde 2004. Ele considera o seu restaurante um dos únicos estabelecimentos de ambiente familiar que funcionam à noite na Rua Cruz Machado.

Sobre o submundo da noite na rua que termina aos pés da catedral, Pereira diz que a relação é tranqüila, num estilo ''eles lá e nós aqui''. Sobre a influência do ambiente em relação ao movimento de sua casa, avalia que é de 20 a 25%, pois a população fica com receio de ir à Rua Cruz Machado à noite. ''Até o secretário de Segurança do Paraná, o (Luiz Fernando) Delazari, falou que as ruas mais perigosas de Curitiba são a Saldanha Marinho e a Cruz Machado. E isso afeta o público. Um cliente chegou a falar: 'Se o secretário falou, existe'.'' A assessoria da secretaria não soube dizer se o secretário foi o responsável por tal afirmação.

Para o comerciante, a solução é fácil: bastaria uma viatura de polícia permanente na esquina próxima ao seu restaurante, o que, em sua opinião, acabaria com o uso e tráfico de drogas. ''Quanto à segurança, nós, em 36 anos, nunca fomos assaltados. Aqui, à noite, não tem roubos. A questão para eles é a droga, então, se assaltarem, vão prejudicar eles mesmos.''

A fala é reiterada por outro comerciante, que este repórter conversou sem se identificar como jornalista e, por isso, não cita o seu nome. ''Existe um universo de regras que todos que vivem da noite respeitam. Só se dá mal aqui quem vem de fora, que desconhece as regras e acaba fazendo bobagem.''

Há 18 anos trabalhando na Cruz Machado, Pereira, o dono da Acrótona, diz que os tempos mudaram. ''Aqui, o tráfico sempre existiu. Mas hoje é mais enrustido. Antes, era em toda a esquina. Era mais livre e, hoje, mais moderado.''

Apesar das dificuldades, entende que pior que a realidade é a fama que a rua tem. ''Uns falam que é a Boca do Lixo, outros que é ponto de tráfico. E nós sobressaímos a tudo. Criada em 1974, a nossa casa ficou. Esfriou, é fila direto.''

Depois do fechamento da casa, as sobras de sopa alimentam os moradores de rua e usuários de droga da Cruz Machado. ''No final da noite, damos uma sopa para o pessoal aqui. É tarde e eles estão com fome. Dá até dó.'' A partir disso, cria-se um vínculo. ''Eles ficam na deles, mas cuidam da casa também. Não importa o que eles fazem. E eles olham a casa para a gente.'' Mas Pereira pede que esperem na esquina, distante da frente do restaurante. ''Se um cliente me vê com uma dessas pessoas, não volta aqui. Pensa que eu estou envolvido com essa turma. Tenho que manter a distância. É aquela coisa: me diga com quem andas, que direi quem és'', diz. ''É um aviso que dou aos meus funcionários, pois a polícia também não vai saber diferenciar.'' (R.U.)

Leia mais sobre esse assunto na página 3 [no próximo post].



* Reportagem originalmente publicada no Caderno Curitiba do Jornal Folha de Londrina, do dia 26/06/2008.

Sobre o texto: este é longo e tem continuação no próximo post. É o primeiro que escrevi na Folha de Londrina a ser publicado em duas páginas de jornal. Somados os textos, que foram reduzidos, a contagem de caracteres ultrapassava 22 mil.

Ponto de partida: em 2007, formei, ao lado do crítico Carlos Eduardo Lourenço Jorge e do professor e cineasta Eduardo Baggio, a comissão de seleção de projetos para realização de filme digital do Fundo Municipal de Cultura de Curitiba. De toda aquela experiência, o momento mais marcante foi quando o Carlos Eduardo leu em voz alta o poema “Balada da Cruz Machado”. O texto não era apenas brilhante, mas acompanhado de um projeto para adaptá-lo ao cinema que é o melhor que já tive a oportunidade de ler e que recebeu, por unanimidade, a nota máxima.

Mais tarde, conheci e me tornei amigo de Terence. Ele ao lado de Josiane Orvatich são os responsáveis pelo Díinamo, um espaço muito importante que materializou uma possibilidade de encontro entre os realizadores curitibanos. Na noite de dezembro em que conheci o poeta Rodrigo Madeira no cineclube, ele topou e participou de um projeto fotográfico que realizei no últimos dias de 2007.

A reportagem: No texto, reproduzo, entre as várias versões existentes do poema, trechos da que o cineasta optou por usar em seu filme – Madeira publicou uma delas em versão integral no blog Pó&Teias.

Iniciei a reportagem com uma entrevista com Terence, que me contou da produção de seu filme. Semanas antes, acompanhei um dia de gravações e uma das fotos que fiz aparece na matéria. Da conversa surgiu a idéia de irmos à Cruz Machado naquele mesmo dia. Pelas 23h, fui, acompanhado de Terence, à rua. Ainda que o ponto de partida seja o poema e o filme, a discussão chega, evidentemente, ao consumo de crack na região central da cidade.

Lá jantamos na casa de sopas Acrótona e, me identificando como jornalista da Folha de Londrina, conversamos com Marco Antônio Pereira, um dos proprietários do restaurante. Ele sugeriu que retornasse no dia seguinte para falar com seu sócio e com outros comerciantes da região, o que acabei não fazendo, uma vez que a matéria não era investigativa e que, se eu voltasse a dar as caras por ali, minha presença seria logo notada, o que talvez não fosse interessante para a minha integridade física. Na seqüência, andamos pela região e conversamos com outros comerciantes. Falamos com o dono de um boteco – sem me identificar como jornalista –, mas ele logo deu sinais de ficar desconfiado com tamanha curiosidade. Utilizo um trecho da fala dele sem identifica-lo: “A fala é reiterada por outro comerciante, que este repórter conversou sem se identificar como jornalista e, por isso, não cita o seu nome”. O pedido foi do próprio Terence, que sugeriu, com razão, que não seria uma boa contar ao sujeito que eu era jornalista.

Depois, fomos a um dos bordéis da região. Conversamos com algumas das prostitutas que, logo de cara, nos contaram que uma delas era menor de idade. A jovem me contou sua história: a mãe aliciara ela e sua irmã. Via sua terra natal, Antonina, como uma cidade tomada pelo crack, mesmo caso de muitas de suas colegas da noite. Contava que optou pela prostituição aos 16, para poder sair de casa e deixar de ser espancada pelos irmãos, cujas pancadas ainda lhe deixavam marcas. A jovem sugeriu que conseguiu trabalho no local por apresentar uma identidade falsa, em que aparecia como de maior de idade, mas não consegui apurar a veracidade da fala. Tampouco ela me confirmou que, realmente, tinha menos de 18 anos.

Ainda que os depoimentos das mulheres que trabalhavam no bordel tivessem sido interessantes, optei por não utiliza-los na matéria. Por não poder confirmar se a casa realmente estava empregando uma menor de idade, e por não ser investigativo o intuito da matéria, eu e a editora da sucursal curitibana do jornal, Adriana de Cunto, a Drica, optamos por não utilizar a informação. No bordel, mais uma vez, não me identifiquei como jornalista.

Repercussão: o jornalista Luiz Geraldo Mazza elogiou a matéria em seu programa matinal apresentado na Rádio CBN ao lado de José Wille. Drica, a editora da sucursal, me motivou a inscrever a reportagem em prêmios de jornalismo. Paulo Urban, meu irmão, achou que o texto tinha algumas barrigas – momentos truncados – e sugeriu que talvez fosse pelo uso de intercalações com trechos do poema. O cineasta e amigo Terence Keller, personagem da matéria, gostou do texto com ressalvas. Sua parte favorita é o depoimento de um usuário (que aparece no próximo post). Ele criticou algumas imprecisões deste repórter, que serão tratadas no próximo item.

Erros, lapsos e confusões: Terence lembrou este pobre repórter que a heroína nunca veio com força para a cidade, e que os picos dos anos 1990 de que falava eram os de cocaína. Na versão original do texto (que neste blog aparece corrigida) eu completo a fala de Terence erroneamente: “como nos picos (de heroína)...”. Outra é de quando descrevo a ação do momento em que a turma dos pedaços de pau retorna para tirar satisfações. A versão original do meu texto (“A turma dos pedaços de pau retorna”) dá a entender que os cinco retornaram. Porém, Terence me disse que só dois deles voltaram. Na versão que aparece neste blog, corrijo a imprecisão. Além disso, coloquei uma trema que não existe em “Shopping Mueller”.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Aguardem o MeOscar!


MeMostra! completa um ano e promete premiação para o cinema local*

Tudo começou com a exibição de curtas-metragens em um bar da cidade. Alguns clientes ficavam incomodados porque os filmes atrapalhavam suas refeições - “Pô, tô comendo aqui! Desliga esse treco aí!” -; enquanto outros ficavam indiferentes. Também havia aqueles que se identificavam, mas que eram atrapalhados por barulhos de talheres, conversas e garçons. A responsável pela projeção, Viviane Follador, logo se deu conta de que ali não era o melhor espaço; tinha que ser no cinema mesmo. Viviane fazia o curso de pós-graduação em Cinema da FAP. Lá, conheceu Fabiana Moro: conversaram e perceberam que os filmes que elas estavam produzindo na faculdade não tinham espaço para exibição: “Finalizávamos um curta e, quando chegava a hora de exibir, apareciam umas cinqüenta pessoas, todas parentes e amigos”, explica Viviane. Juntas criaram o MeMostra!. “Me mostra porque eu quero que me vejam. E ‘mostra’ por exibir filmes também: a produção independente de curtas, médias e longas paranaenses”.

O projeto acaba de completar um ano: desde março de 2006, apresenta filmes locais e mais um vídeo de outro estado, na última quarta-feira de cada mês. As primeiras mostras foram no Cine Plaza. Espaço que exigia uma limpeza especial após as sessões; muitos usavam as mais de oitocentas cadeiras do cinema com outros fins: lá encontraram camisinhas, seringas e até uma calcinha. Na última exibição no local, em maio passado, o cinema estava sem energia elétrica. A solução foi buscar um gerador. A data foi marcante e teve o recorde de público do projeto: mais de cem pagantes. Para Viviane também foi emocionante pois, além de trazer um público que há muito não ia ao cinema, marcou a despedida do Cine Plaza, o último cinema de rua privado de Curitiba. Hoje, o imóvel está à venda.

Na seqüência, realizaram uma sessão no Santa Mônica Clube de Campo. Apenas em outubro do ano passado voltaram a ter um parceiro fixo: o Cineteatro HSBC, no prédio do antigo Palácio Avenida, espaço que tem atingido um público de, em média, 60 pessoas. Recentemente, o grupo responsável, que hoje conta com o apoio de mais pessoas, conseguiu promover o lançamento de dois DVD's com vídeos que foram exibidos no MeMostra!. Eles estão disponíveis nas locadoras Vídeo 1 e Cartoon Vídeo e foram subvencionados pela soma das bilheterias das onze sessões já realizadas. A Cartoon passou a ser parceira do projeto: os interessados em exibir seus vídeos podem deixar cópias em DVD em qualquer uma das franquias (os endereços estão no final da matéria). Este ano prometem outra novidade. As projeções deverão, muito em breve, ser acompanhadas de uma premiação: “Queremos fazer o MeOscar! Paranaense. Fazer uma premiação com todos os filmes já exibidos...”, comenta Viviane. E o formato? “A ser definido”, completa a jovem.


Onde deixar seus filmes para ser exibidos no MeMostra!
Cartoon Vídeo
Cabral – R. São Pedro, 347 – fone: 3253-3245
Cristo Rei - R. Luiz Brambila, 51 – fone: 3363-6035
Ecoville - R. Prof. Pedro Viriato Parigout de Souza, 565 – fone: 3339-3500

Contato:
http://www.memostra.com.br/


FOTOS: Rafael Urban

1ª - A equipe por trás do MeMostra!: Guilherme Glück, Fabiana Moro, Viviane Follador e Luiz Felipe Araujo

2ª - Viviane Follador apresenta a sessão de aniversário do MeMostra!


* Matéria originalmente publicada no Jornal do Estado do dia 05/04/2007.