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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Aniversário da Fifi

A festa é da poodle toy, mas a família Merlin comemora ao ver a Vovó Lourdes, que sofre de Mal de Parkinson, em atividade


Rafael Urban

Equipe da Folha*


Fotos: Diego Singh

Fifi acompanha Vovó Lourdes em todas as atividades. Ela protege a sua dona e os amigos alertam: ‘No colo ela é um perigo’



Filha de Shaquille O‘Neal e Chaiene, registrada sob o PRG 01/04625, a poodle toy Josephine Merlin completou sete anos de idade neste mês. No domingo passado, a família Merlin comemorou o seu aniversário com uma festa que já é tradição na residência construída em 1902, no Centro de Curitiba. Fifi, como é conhecida a pequena bolinha preta e peluda, 40 centímetros do rabo ao fuço, chegou na casa em 2001.

A dona oficial da cachorrinha é Maria de Lourdes Merlin, 86 anos. No começo de 2000, vovó Lourdes estava triste e deprimida. Na casa construída por seus pais, Luiz e Virginia, os únicos animais restantes eram aqueles que viviam em sua lembrança: Cravinho, Violeta e Piri. Depois de um derrame, da chegada do Mal de Parkinson e de uma ponte de safena no coração, Lourdes estava sem motivações para seguir adiante. Isabel, sua irmã, pediu que sua sobrinha Virginia escutasse sua prece: ela queria um cachorro.

Fifi veio dentro de uma sacola trazida de ônibus por Nilce Firmino de Cruz, 51, a dona do Quenfileds’s Kennel – grafado erroneamente graças ao pouco conhecimento na língua inglesa do responsável pelo registro. Nilce ficou muito incomodada: achou que a cachorrinha só ia levar confusão para a família, fazendo xixi por todos os lados e que, por fim, a senhorinha não ia dar contar de tamanha energia. Porém, dos mais de mil animais que já criou, Fifi foi dos que mais lhe trouxe boas recordações. ‘‘Era como se tivesse chegado um bebê. A casa era uma alegria só’’, lembra.

Desde então, ano após ano, comemoram o aniversário da Fifi. ‘‘O cachorro é só uma desculpa. A idéia é motivar a avó e também recolher doações. Acredito piamente que ela tem na Fifi a motivação para viver’’, conta Ewalda Stahlke, dermatologista, que é amiga da família há mais de 20 anos e ocupa o cargo de ‘‘palpiteira oficial’’ nos preparativos para a festa que começam 30 dias antes.

Ao invés de presentes, o convite pede que se leve dois quilos de ração para serem doados aos mais de 800 cães e gatos da Sociedade Protetora dos Animais de Curitiba, a qual vovó Lourdes ajuda há décadas e que foi escolhida para receber os donativos deste ano. Os 80 convidados levaram 243 quilos de ração.

Borboleta
As festas, sempre temáticas, já passaram por ‘‘circo’’, ‘‘praia’’ e ‘‘anos 50/60’’, em que um conhecido fez as vezes de Elvis cover. Os gastos, por sinal, são mínimos e sempre contam com a ajuda de amigos e familiares que se tornam voluntários. O tema deste ano foi eleições. ‘‘Sempre escolhemos algum assunto que a minha mãe goste muito’’, comenta Virginia Merlin, 50, que tem duas irmãs e um irmão.

‘‘Não é uma festa para cachorro, mas uma festa beneficente para arrecadar fundos para cachorros carentes’’, diz Virginia. ‘‘É uma reunião de amigos’’, completa vovó Lourdes. Do tema eleições, estabeleceram uma decoração a partir do símbolo de uma borboleta, o partido da ‘‘cãodidata’’.

Ao chegar na casa, cada um dos convidados recebia uma pequena cédula de papel para deixar uma mensagem e confirmar o seu voto na candidata única Josephine Merlin, do Partido Borboleta. ‘‘Um animal alegre e colorido, que voa de galho em galho como um político troca de partido’’, explica a filha Virginia.

Ao fundo, toca a ‘‘Marchinha para Vovó Lourdes’’, umpresente de Reinaldo Godinho, que já fez diversos jingles para campanhas políticas. ‘‘É Josephine aqui, é Josephine ali, é Josephine lá! No colo da Lourdinha, ela é preta, do Partido Borboleta.’’ A música se alterna com uma gravação do carro dos sonhos, esses também vendidos por políticos.

Por toda a casa, preparada para a festa em seu interior e exterior, foram distribuídas pequeníssimas borboletas de papel, feitas uma a uma pela dona da aniversariante.



A terapeuta ocupacional Sara Dias Sampaio explica que os preparativos começam 30 dias antes


‘‘Nesses 30 dias, fazemos, eu e Vovó Lourdes, uma série de projetos para a festa’’, diz a terapeuta ocupacional Sara Dias Sampaio enquanto aponta para um quadro bordado por Lourdes em que Fifi é retratada. ‘‘A mãe hoje é outra pessoa. Tá passada a limpo’’, completa, feliz, a filha Virginia.



'Ela é a terapia da minha mãe'



Virginia Merlin com o esposo Iran Longhi. Ao invés de presentes, convidados levam ração para ser doada à Sociedade Protetora dos Animais


Na época em que vovó Lourdes ainda não estava de cadeira de rodas, ela passeava com a fisioterapeuta Mônica Lúcia Zanetti, que levava Fifi no bolso do jaleco. O começo foi difícil, pois ao chegar perto de Lourdes a pequena atacava. ''Tivemos de conquistar a cachorrinha para se aproximar de dona Lourdes. A presença da Fifi junto nas sessões estimula muito ela. Melhorou 1000%'', explica a fisioterapeuta.

A importância da bolinha preta e peluda nesta história é valorizada pela neurologista Teresinha Lissa, 50, médica de Lourdes, também presente na festa. ''Qualquer estímulo é importante. Ela transfere a parte emocional para o cachorro'', comenta. Em sua própria família, Teresinha tem um exemplo próximo. ''Quando via o cachorro, minha mãe voltava à realidade. Era o seu 'fio terra'.''

Bianca Valente, 24, filha da médica, lembra de um dos momentos que considera mais emocionantes. Diva, sua avó, estava com um estágio muito avançado do Mal de Alzheimer e não reconheceu nem a filha tampouco a neta. ''Quando apontamos para o nosso cachorro, ela disse: 'Esse eu sei quem é, é o Tequila'.''

''A Fifi é a terapia da minha mãe'', comenta Virginia, filha de Lourdes. ''Quando ela está confusa, adora ler o pedigree'', conta sobre o documento em que aparecem os antepassados de Josephine Merlin. Para Sara, terapeuta ocupacional, ''o envolvimento da família é motivador e muito importante. E por isso dá resultado''.

''Quando pego a agenda de telefones da mãe, parece obituário. Os amigos ou estão mortos ou deixados de lado em um depósito de gente. A minha mãe tem qualidade de vida'', conta Virginia, que mora com Lourdes, Fifi e com seu esposo Iran Longhi, que também adora a cachorrinha. ''Ele é o irmão mais velho dela'', brinca. (R.U.)


Gengibirra e gasosa de limão

A festa de Fifi também traz lembranças de uma época em que os cachorros Gibi, Peninha, Fuço-preto, Fraulein Bambi e Fraulein Hipelmouse passeavam pela residência.

''É um reviver de nossa infância'', comenta Virginia. Galileu, seu falecido pai, organizava as festas no dia das crianças, um aniversário para os animais e bonecas em que se reuniam os amigos.

O convite era feito em nome dos cachorros e tinha direito a um carimbo especial. ''Pegávamos a patinha do nosso cachorro, molhávamos no barro e marcávamos no papel'', recorda.

As festas eram regadas a docinhos em formatos de bichos e a dois engradados de refrigerantes Hugo Cini: gengibirra e gasosa de limão ou framboesa que Galileu ia buscar na fábrica na rua Visconde de Guarapuava. (R.U.)


Um chinês que não come cachorros

Em 2006, um chinês em passagem pela cidade foi até a festa de Fifi. Ficou encantado e fotografou cada detalhe. ‘‘No meu país comemos cachorros. Aqui vocês fazem festa’’, recorda Sara de uma fala do inusitado convidado.


Ele contou que não come cachorros. ‘‘Mas não deixamosa Fifi dando sopa não’’, brinca a dermatologista Ewalda Stahlke.

Na festa deste ano, um cartaz anunciava: ‘‘Chega de cachorro-quente’’. Virginia explica: ‘‘Ter hot dog em festa de cachorro seria mau gosto. Não combina.’’ (R.U.)


* Reportagem originalmente publicada no Caderno Curitiba do Jornal Folha de Londrina, do dia 23/10/2008.



Sobre o texto: Uma festa que me pegou de surpresa.


Ponto de partida: Entrevistava Igleide Araújo de Almeida, proprietária da Dogtour, agência de viagens para donos que gostam de cruzar o País com seus animais. A conversa foi para outra reportagem, que batizei de “Para animal algum botar defeito”, em que falo de serviços para os bichos na cidade – de cemitério especializado a hospital 24 horas. Igleide comentou de sua grife de alta costura para os caninos, a Flavinha Fashion, e contou que sabia de uma cachorrinha que tinha sua festa de aniversário todos os anos na cidade. Demonstrei interesse e ela me entregou um xerox com uma reportagem de uma revista sobre idosos que falava do acontecimento no ano passado. Disse também que os convidados levavam seus cachorrinhos ornamentados com vestimentas chiques. A surpresa foi descobrir que a festa acontecia em outubro quando já era outubro.


A reportagem: A expectativa, então, era encontrar uma festa dedicada a cachorros – cheguei a conversar com uma jovem especializada em fazer bolos e doces para festas de bichos. Entrei em contato com Virginia Merlin, a responsável pela organização do aniversário. Ela parecia bastante receosa, mas concordou que eu fosse cobrir a festa com a condição de não citar o endereço da residência na reportagem – pedido que ela repetiria mais duas vezes.


Cheguei à residência em dia de festa junto com o fotógrafo Diego Singh. Virginia nos recebeu na porta. Muito simpática, logo pediu que Sara, a terapeuta ocupacional citada na matéria, nos apresentasse a festa. Não havia outros cachorros – a única vez que eles foram convidados foi uma bagunça só, com direito a briga e tudo, como me contou Jussara Elias, sobrinha de Lourdes. Mais do que isso, a festa tinha um propósito muito claro e relacionado à terapia ocupacional: motivar vovó Lourdes.


Foi emocionante ver o afeto da família. A título de exemplo, no jardim, construíram estruturas de modo que, mesmo de cadeira de rodas, Lourdes consiga cuidar da horta. As borboletas de papel, feitas uma a uma em um pequeno cortador com forma (não consigo pensar no nome do objeto) estavam por todos os lugares externos e nos vários os cômodos da casa. Amigos trouxeram tudo o que encontraram com borboletas e esses objetos decoravam a casa. A família, inclusive, dormiria naquela noite com pijamas com estampas do inseto e deitaria em travesseiros recapados de fronhas com desenhos de borboletas.


Cheguei a pegar Fifi no colo, mas ela não sossegou. Ela tem os pelos sob a boca brancos graças ao cloro. Segundo contagem de Iran (o irmão mais velho), ela dá 80 lambidinhas a cada vez que toma água. Conversei com muitos amigos e familiares – Virginia, como Ewalda elogiou em certo momento, tem uma capacidade fascinante de sinergia para reunir as pessoas. O complicado de ter tantos depoimentos interessantes é que, no final da história, muitos ficam de fora. A especialista em odontologia veterinária e dona da clínica Odontocão, Maria Izabel Valduga, que não é citada na reportagem, me contou que acompanha os dentinhos de Fifi desde quando era um bebê. “Ela recebe ração, que é o adequado, mas tem muitos ‘agrados’”, confidenciou.


Fiquei na festa das 17 horas até pouco antes da meia-noite, quando, por fim, consegui escutar as histórias de Virginia – que não parava um minuto durante a festa. O bate-papo com Iran, seu esposo, também foi muito interessante e descobri que ele conhecia meu pai, Polan Urban, de quem lembrou com muita alegria. Iran, inclusive, já foi candidato a senador. Virginia achava que o esposo, que é administrador, não ia conseguir muitos votos – pois fez mais de 50 mil e ainda recebeu a ligação de uma fã que, depois de tê-lo visto na TV, desejava casar com ele. Já a conversa com vovó Lourdes foi bastante breve, mas fiz questão de colocar ao menos um pouquinho de sua fala na reportagem. Devido ao Parkinson, ela se comunica com bastante dificuldade, ainda que mantenha um discernimento muito grande sobre o que passa à sua volta.


Repercussão: “Linda, linda, a reportagem ficou linda.” A ligação que recebi de manhã de Virginia Merlin foi um enorme alívio. “Estamos nos revezando aqui na leitura. É impressionante como você é detalhista”, elogiou. Eu estava muito preocupado com o conteúdo da matéria, uma vez que tratava de assuntos muito pessoais e delicados. Virginia me tranqüilizou.


No dia anterior, quando terminava de escrever, pensei em ligar para ela e pedir para que ouvisse a versão final da reportagem. Como regra geral, não aceitamos pedidos de se ter acesso ao conteúdo antes da publicação, por uma razão muito clara de liberdade para se desenvolver o trabalho. A única vez que mostrei um trecho de uma reportagem antes de sua publicação foi quando pedi a Ana Pasinato Niculitcheff, filha de Valêncio Xavier, que me dissesse se estava delicado o modo como eu falava da doença de seu pai. Ela assentiu. Naquele momento, como já tratei em post anterior, todos os amigos do escritor recomendaram que eu não citasse a doença.


Neste caso, mais uma vez, penso que seria natural pedir o acompanhamento da família. Verdadeiramente, não o fiz, pois dois editores leram a reportagem na redação e me disseram que não havia por que se preocupar, uma vez que o texto era bastante respeitoso. Houve, também, uma questão crucial e freqüente no jornalismo: o horário do fechamento estava por chegar e o tempo se esvaía.


Para não perder de vez a temática desta parte do post, conto que a reportagem surpreendeu alguns colegas de redação, que dias antes pareciam espantados sobre a temática da festa, que, por fim, era muito distante de sua aparência inicial.


Erros, lapsos e confusões: Rodrigo Neppel, editor do Caderno Curitiba na redação de Londrina, decidiu dar um tom mais dramático à gravata (o subtítulo) adicionando o “Mal de Parkinson”, que não aparecia no meu texto original. Porém, se confundiu e escreveu “Mal da Parkinson”, o que já aparece corrigido neste blog. Neppel, por sinal, é um editor muito interessado e extremamente atencioso, além de um dos jornalistas mais respeitados na Folha de Londrina.


Os textos, inclusive, depois da edição, seguem bastante fiéis à versão que escrevo, salvo apontamentos que, em geral, tornam as matérias mais fluídas. Isso, porém, é regra no Curitiba, que é um caderno que permite um espaço de texto maior e que, salvo quando se escreve demais da conta, o que faço com relativa freqüência, não há necessidade de cortar parágrafos. Já nos cadernos diários, os textos sofrem mudanças mais bruscas e cortes grandes de tamanho. Posso dizer que já sofri isso na pele e não é das experiências mais agradáveis. Voltando ao Neppel, depois de ler a matéria, ele comentou. “Agora, até eu estou gostando da Fifi. Achava que era outra coisa a festa.”


Quanto às fotos, uma das legendas foi trocada. A idéia é que o texto ilustrasse uma imagem em que aparecia um cartaz na porta de entrada com os dizeres: “Consultório para quem sofre de cachorrite.” Reproduzo abaixo, a foto e a legenda como foram publicadas no jornal.



A decoração estava por toda casa. Na porta de entrada, uma brincadeira com os doentes por cachorro

domingo, 12 de outubro de 2008

Senhoras de programa

No Centro de Curitiba, não há limite de idade entre as profissionais do sexo

Rafael Urban
Equipe da Folha

Foto: Marcos Borges

Luciana (alcunha fictícia), 60 anos, passa as tardes no Passeio Público, onde acerta seus programas



O Passeio Público fica no centro de Curitiba e é o lugar em que Luciana passa suas tardes. Ela é uma mulher de programa. ''Nada disso. Sou velha de programa'', comenta. Com a diabetes descoberta há cinco meses, o médico, que desconhece sua profissão, sugeriu que ficasse mais tempo em um lugar com árvores. ''Mais uma boa razão para eu vir aqui todo dia.'' Sua aparência esconde as marcas do tempo e, diz, ninguém acredita quando conta a idade. Este repórter teve surpresa semelhante ao descobrir que ela fez 60 anos no dia 29 de julho.

Luciana começou a trabalhar como profissional do sexo aos 19 anos. Quatro Bicos e Stardust são boates chiques, e hoje extintas, nas quais trabalhou em Curitiba. Também passou por casas de luxo em Porto Alegre e Santos. ''E no meio disso tudo já namorei prefeito, deputado e até jornalista da televisão.'' Luciana é uma das poucas com mais de 60 a seguir na ''batalha'', expressão utilizada no meio nas ruas da Capital.

Seja no Passeio Público, na Santos Andrade, a praça em frente ao Teatro Guaíra, ou na Generoso Marques, ao lado do Marco Zero de Curitiba, as senhoras de programa estão por toda a região central da cidade. O preço por programa é quase tabelado, de R$ 20 a R$ 30, de acordo com acerto com o cliente, um valor distante dos cobrados nos bordéis de luxo, em que comumente ultrapassa R$ 150. ''Nossos clientes são operários, pedreiros. Não temos como cobrar mais'', comenta Luciana - a alcunha é fictícia, tal como a das outras personagens desta matéria, e foi sugerida por elas mesmas.

O preço dos hotéis utilizados nos encontros também parece seguir uma regra comum, que define o valor em R$ 10 a meia hora. Luciana lembra de um que custa menos (R$ 8), mas que é tão descuidado que não vale a economia. Nos dias de calor, ela veste mini-saia e blusa curta e, segundo suas palavras, chega a causar escândalo. ''Gosto dos clientes mais velhos, pois os jovens ainda estão cheios de fantasia e querem fazer coisas diferentes.'' No mês passado, ela atendeu a um rapaz de 18 anos.

Com as economias de uma vida, Luciana comprou carro e uma casa de dez cômodos em Colombo, Região Metropolitana de Curitiba. E, pensando no futuro, paga INSS como cabeleireira, profissão que exerceu no passado, o que vai permitir se aposentar em breve. ''A idade vai chegando e vamos ficando menos vaidosas, a pele vai caindo. Não sou mais a bela mulher que fui. Todo mundo fala que é uma vida ruim, mas a minha não é de uma sofredora. Sou feliz'', sentencia.


Na Generoso
Dona Sônia, que diz ter feito ''65 anos faz tempo'', tem opinião diferente. Ela acerta seus programas na Praça Generoso Marques, a poucos metros do marco inicial da cidade, onde trabalha pelas manhãs. Já foi tirada da profissão seis vezes. ''Por seis homens diferentes, todos mais jovens que eu. Não gosto de velhos'', comenta.

Para Sônia, a pessoa mais idosa encontrada pela reportagem a continuar trabalhando na profissão, a sua passagem pelo inferno já aconteceu. ''É um lugar que só quem se vendeu na rua tem conhecimento. Essa vida é coisa do satanás.''

Na praça em que ela trabalha, os pontos são vários. Há o cantinho das coroas ao lado da floricultura, e senhoras sob as marquises. ''Tem que saber entrar e saber sair. Quando estou em casa sou outra; viro dona de casa e mãe'', comenta Neusa, 44. Enquanto ela estiver tratando seu rim, não pára. Em paralelo ao seu trabalho na rua, por diversas vezes exerceu o ofício de doméstica. ''Quando o meu último patrão me viu aqui, me despediu na hora.''

Neusa já parou de contar quantas vezes distintas senhoras lhe cuspiram na cara, as mesmas que não lhe oferecem emprego. ''Dizer que é prostituta é o mesmo que falar que você rouba as pessoas. Nunca obriguei um homem a fazer sexo comigo.'' No final do dia, volta para o lar, onde responde como mãe e dona de casa.


Entre prédios históricos

‘‘Venha nos entrevistar daqui a alguns anos. Estaremos aqui’’, comenta uma moça de 36 anos na Rua 13 de Maio, região central de Curitiba. Sua dica é buscar pelas senhoras na Praça Santos Andrade, situada entre o Teatro Guaíra e o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná. Em um banco da praça, conversam, como velhas amigas, Linda, 49, e Márcia, 45. ‘‘Somos umas dez trabalhando na praça’’, explica Linda, que repete a mesma rotina diariamente há 20 anos: das 10 às 17 horas espera por seus clientes em um banco com vista para o prédio histórico. ‘‘Fui chegando, fiquei aqui e daqui não saio mais. Os conhecidos vêm nos procurar. Além disso, é uma praça gostosa.’’

Já Márcia não tem tanto carinho pelo lugar. ‘‘Quem é que vai gostar desta vida lazarenta? Tentei até ser doméstica, mas não deu certo. Peço a Deus: um dia eu saio.’’ Aos 25, depois de se separar do primeiro marido, Márcia começou a vender bilhetes de loteria. Conheceu as meninas que ofereciam serviços sexuais e acabou se enturmando. Hoje, prefere trabalhar durante o dia, por uma questão de segurança. ‘‘À noite, todos os gatos são pardos’’, diz.

O marido de Linda a conheceu na rua, há 17 anos, e não gosta de sua profissão. ‘‘Mas ele procura esquecer o que vou fazer e eu saio de casa como se estivesse indo dar uma volta.’’ Com a chegada da idade, as coisas mudaram. ‘‘Antes fazia de dez a 20 programas por dia. Hoje um ou dois no máximo e fico exausta por levar chá de espera no banco.’’ Linda cobra no mínimo R$ 20 por programa e, em casos raros, chegou a receber R$ 50. ‘‘Você acha que só menina nova faz essas coisas?’’

‘‘Enquanto eu puder com as pernas, eu não derrubo o barraco não’’, comenta Marlene, 49, colega de praça de Linda e Márcia. Ficar em casa seria para ela o mesmo que virar uma ‘‘velha coroca’’. Marlene também vê mudanças. Do passado, se recorda da época em que ganhou entre R$ 100 e R$ 150 por dia. ‘‘Estão preferindo as mais novas. As velhas estão ficando para tia’’, diz. Por fim, propõe um abaixo assinado para a reabertura do Hotel Rota Nova, fechado pela prefeitura. (R.U.)


Fórmula da juventude

Victoria Secret se orgulhava de ter todos os homens aos seus pés. E gostava disso. Viajando com um grupo de cinco meninas auto-intituladas ‘‘As panteras’’, conheceu o País fazendo shows de strip-tease. Já ganhou muito dinheiro na noite e torrou outro tanto, especialmente com roupas e acessórios de marca que lhe valeram o apelido no meio e que a identifica nesta matéria. ‘‘Quando estava no meu auge, aos 25 anos, em dois meses e meio ganhei R$ 25 mil e comprei um Golf.’’ O ápice passou, são menos homens aos seus pés e os ganhos já não são tantos, mas, em sua opinião, continuam bons.

Victoria trabalha em uma das casas de luxo da cidade e é uma das poucas que ultrapassou a barreira dos 30 anos e continuam ali. ‘‘As casas barram as mais velhas’’, explica Bia Gil, colega de boate, que diz ter 26 anos, enquanto, na verdade, tem 32. ‘‘Todas as mulheres da noite contam que têm dez anos a menos do que sua idade verdadeira.’’ No caso de Victoria, ela diz aos clientes que tem 30, ao passo que a sua identidade aponta 36.

‘‘Está vendo tudo isto aqui?’’, ela questiona enquanto olha para o ambiente da boate em que belas jovens realizam coreografias como se estivessem em uma danceteria. ‘‘É tudo uma ilusão.’’ Victoria Secret recorda que demorou para se dar conta disso. Desde o início do ano, faz um curso profissionalizante, que espera possa a ajudar a se aposentar. Quanto ao futuro, estará na noite ao chegar aos 40? ‘‘Somente se eu descobrir a fórmula da juventude. Se eu fosse eternamente jovem, seria eternamente puta.’’ (R.U.)


‘Batalhando na melhor idade’

Diego Singh

Carmen Costa (ao centro) e a equipe do Grupo Liberdade, que defende os direitos das mulheres de programa

Carmen Costa, 50 anos, diz logo de pronto, sem hesitar. ‘‘Eu sou prostituta.’’ É a palavra que ela prefere para descrever o ofício o qual exerceu durante 27 anos. Desde 1994, porém, já não tem tanto tempo para trabalhar nas ruas. No dia 18 de maio daquele ano fundou o Grupo Liberdade, que defende os direitos das mulheres de programa. ‘‘Pensei em muitas coisas: na epidemia da Aids, na falta de um lugar de apoio e orientação.’’ Em relação à ausência de alguém para recorrer, ela havia sentido isso na pele pouco antes, em 1992, quando estava grávida pela segunda vez – o que foi sua motivação maior para abrir a ONG.

O grupo conta com uma equipe de seis pessoas, entre elas uma educadora e uma assistente social. Depois de ‘‘Boca de gamela’’ e ‘‘Meninas na prevenção’’, a ONG está iniciando o projeto ‘‘Batalhando na melhor idade’’, que visa trabalhar a auto-estima das mulheres de programa com mais de 40 anos. Segundo levantamento da ONG em 2005, das 30 mil mulheres que trabalham com prostituição em Curitiba, 45% delas têm mais de 40 anos. ‘‘Elas começam a se sentir um ‘trapo velho’, a se descuidar. Em muitos casos, deixam de se preocupar com a Aids, achando que, se não pegaram até agora, não vão pegar mais’’, diz. ‘‘Hoje, uma senhora faz um; quando muito, dois programas por dia. Elas não têm outra opção (de trabalho) e começam a se sentir como coitadinhas. Além disso, o número de clientes diminuiu e o número de prostitutas nas ruas aumentou.’’ (R.U.)


Na literatura de Dalton

‘‘Ele subiu na cama para não arrastar a calça no pó. A mulher dobrou uma perna, depois outra, safando-se da saia preta de couro – a coxa com nervura azul de varizes. Sentou-se para enrolar as meias. Deixou cair o sutiã. Foi deslumbrar-se no espelho, o seio na mão. Buscou ali o olhar de Nelsinho – depressa ele o desviou. A criatura deu volta à cama. Enroscou-se nele, as unhas pelo corpo, estremecendo-o todo. Enfiou-lhe a língua na orelha – Que se faça tua vontade, Senhor, e não a minha.’’

Trecho de ‘‘A noite da paixão’’, do livro ‘‘O Vampiro de Curitiba’’, de Dalton Trevisan


A REPORTAGEM

‘‘Você trabalha aqui?’’, repeti a pergunta a 12 mulheres abordadas nas ruas do Centro de Curitiba para a reportagem. Uma delas respondeu: ‘‘Não, estou esperando o meu marido.’’ A maioria se dispôs a contar as suas histórias ao saber que eu gostaria de fazer uma matéria com as mulheres com mais idade que seguiam na batalha.

O ponto de partida para a reportagem não poderia ter sido mais inusitado. Em uma madrugada de julho, estava fazendo uma reportagem no Terminal de Ônibus do Guadalupe, na região central da cidade. Lá, uma senhora que aparentava ter 75 anos – e que mais tarde descobri ter 62 – agendava os seus programas. Isso me motivou a fazer uma reportagem sobre o universo dessas senhoras, uma questão presente desde tempos remotos na cidade e já trabalhada na literatura, como vemos na reprodução de trecho do texto de Dalton Trevisan nesta página, e no cinema – o projeto Olho Vivo, de Curitiba, fez documentário intitulado ‘‘Programa de Senhoras’’, em 2006.

Depois de conhecer várias das histórias, fiquei sabendo que uma ONG, o Grupo Liberdade, tratava dos direitos das prostitutas – aqui uso o termo sugerido pela presidente do grupo. A descoberta mais interessante, em relação à ONG, foi saber que parte do trabalho mais recente deles, que envolve distribuição de camisinhas e orientação em 175 casas da cidade que visitam com freqüência, estava diretamente relacionado ao universo das mulheres de programa com mais de 40 anos. Aqui, a título de curiosidade, cito mais um número apontado por pesquisa da ONG. Em 2005, entre esquinas, casas, salas e saunas, havia 3.178 pontos de prostituição em Curitiba. (R.U.)


* Reportagem originalmente publicada no Caderno Especial de Domingo do Jornal Folha de Londrina, do dia 12/10/2008.



Sobre o texto: A minha maior aventura jornalística até o momento


Ponto de partida: Como eu conto no texto acima e publicado junto à reportagem, estava à noite no Terminal do Guadalupe fazendo uma reportagem acompanhando o serviço do Resgate Social da FAS quando me apontaram uma senhora que estava sentada em uma cadeira no terminal à espera de seus clientes.


A reportagem: Não há outro modo de conhecer estas senhoras e suas histórias a não ser indo até elas nas ruas da cidade. É impressionante notar que estão por todo o Centro, trabalhando a luz do dia e em número expressivo. Estão lá desde tempos imemoriais, mas são pessoas tão humanas, comuns, que passam despercebidas; na correria do dia-a-dia passamos por elas tantas vezes, mas mal notamos que estão lá. Curioso notar que, depois, fica fácil perceber que, sim, estão lá.


As estatísticas do Grupo Liberdade impressionam: 45% das prostitutas de Curitiba (penso que aqui não cabem eufemismos) têm mais de 40 anos. O que fazer quando a idade chega? As perguntas são em número muito maior do que as respostas. Essas senhoras são, necessariamente, pessoas com muita história de vida e, na maioria absoluta dos casos, dispostas a contá-las.


Algumas colegas indicaram Dona Sônia, que trabalha na Generoso, como a mais velha em atividade na cidade. Deixei com uma colega de praça meu telefone, e Sônia me ligou no dia seguinte. Conversamos por uns 15 minutos em que ela me contou sobre sua vida. Fiquei de retornar para marcarmos um encontro pessoalmente. Como viajei no dia seguinte, isso só aconteceu duas semanas depois. Quando a encontrei, ela, sob lágrimas, disse. “Já te contei tudo que tinha para te dizer, dói lembrar dessas coisas, não quero mais falar, por favor, vá embora. Só reforço uma coisa, isso aqui é o inferno mesmo.”


Tive bastante tempo para apurar a reportagem. Pude visitar uma casa noturna de luxo, em que entrei com a autorização da gerência da casa com a condição de não publicar o nome do local. Este outro lado da moeda me pareceu importante para discutir um outro momento, outro patamar do ciclo da prostituição, onde entra muito dinheiro e as meninas são muito bem pagas – e onde, por certo, a idade não é bem-vinda.


Ainda que a prostituição na idade mais avançada seja um tema presente em várias instâncias – como literaturae onde, por certo, a idade n e as meninas se para discutir um outro momento, patamar do ciclo da prostituiços que est e cinema – ela parece distante das discussões sociais. Quando falava sobre a pesquisa para a reportagem, as pessoas, amigos e colegas, se mostravam surpresas: “Sério, existe?” Me surpreendeu que o tema também não fosse comumente discutido na mídia.


Conversei com o Luciano Coelho do Olho Vivo sobre a produção do “Programa de Senhoras”, documentário em que entrevistam uma série de mulheres prostitutas na casa dos 40. Depois, por fim, fui às ruas. No Passeio Público estava sentada em um banco Luciana. Simpática, se dispôs a conversar comigo e tive ali, logo de começo, um dos depoimentos mais importantes – boa parte deles foi colhida em uma mesma tarde. Retornaria depois, com o fotógrafo, para fazer uma seqüência de fotos, acertada previamente pelo telefone. Enquanto Luciana, a personagem que aparece no começo da matéria, topou fazer as fotos, com a condição de que seu rosto não aparecesse, algumas outras não.


A única negativa em dar depoimento veio na Visconde de Guarapuava. Lá, há um prostíbulo que reúne apenas senhoras. Uma delas afirmou que, por ordem do dono, não poderia conversar comigo. Sugeriu que tentasse na quadra seguinte. “Há muitas por aí.” O encontro com Carmen, do Liberdade, foi, também, muito importante. Saber que há uma organização buscando defender os direitos das mulheres de programa foi bastante interessante. E ver uma mulher com pulso firme em sua administração foi uma surpresa positiva.


Repercussão: Esta foi bastante peculiar e veio com o passar do tempo e reportagem. Mesmo antes de ser publicada (o que, como conto a seguir, levou muito tempo), os colegas de redação e amigos que sabiam da reportagem já perguntavam bastante sobre ela. O resultado foi uma recepção muito positiva e o texto foi um dos mais elogiados entre todos os que já escrevi.


Erros, lapsos e confusões: O mais peculiar desta foi que mais que o tempo de reportagem – da idéia inicial à escrita foram cerca de dois meses – foi o tempo que levou para ser publicada. Depois de pronta, ela levou quase outros dois meses para ser publicada. Como ficou grande e precisava de muito espaço no Caderno Especial (de Reportagens) de Domingo, para onde foi originalmente pensada, isso nunca acontecia e ela tinha de esperar mais uma vez por mais uma semana para ser publicada – o que aconteceu semana após semana durante todo esse tempo.


Por fim, chegou o momento da publicação. A diagramação foi uma lástima – o anúncio que atravessa as duas páginas acaba com qualquer possibilidade gráfica. Ainda assim, fiquei feliz que o conteúdo original de texto foi preservado – o que foi uma das minhas batalhas, pois não concordei com a idéia de a reportagem ser reduzida para ficar de acordo com espaços mais freqüentemente disponíveis no jornal. Por vezes, esta é uma questão à qual temos de ceder no jornalismo, mas por esta reportagem, em especial, valia à pena batalhar por espaço.


As fotos, também, acabaram prejudicadas. E a mais importante delas, de Luciana, a senhora de 60 anos que trabalha no Passeio Público, acabou reduzida na primeira das duas páginas e posicionada distante do texto de abertura, em mais um erro de diagramação. Ao contrário, a foto do Liberdade ficou junto ao lead e título, criando uma confusão – na disposição dos elementos da versão impressa, parece que Carmen e as meninas que trabalham no Grupo Liberdade são as senhoras de programa do título. Segundo alguns colegas, a disposição gráfica do texto matou a matéria. Fico feliz que ela tenha sobrevivido a tantas dificuldades.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Clube da solidão

Quatro mil casamentos depois, o programa Quadro Casamenteiro e o Clube dos Solitários seguem firmes e fortes

Rafael Urban
Equipe da Folha*


Mauro Frasson
Rosaldo Pereira lê as cartas de ouvintes com pseudônimos como ‘‘Leonino em busca de sua leoa’’

Fotos: Diego Singh
No salão, os casais dançam agarradinhos, o que tem atraído a presença dos mais jovens

‘‘Sabe, Rosaldo, este mundo é tão grande que, de repente, a pessoa que eu quero está aí do outro lado e eu aqui. Então, quem sabe, ele está agora ouvindo o Sr. ler a minha cartinha.’’

Estrela Verde nº. 68



Rosaldo Pereira já perdeu as contas de quantas cartas leu em seu ‘‘Quadro Casamenteiro’’, programa que apresenta na Rádio Colombo 1.020 kHz AM, de Curitiba, desde 1982. Os convites para os casamentos de pessoas que se conheceram pela emissora ele parou de guardar e contar quando chegaram aos quatro mil, o que aconteceu há oito anos. ‘‘O mais interessante foi a história de um casal que estava se correspondendo por cartas. Você não imagina o susto deles quando se encontraram. Os dois eram vizinhos há décadas e moravam a três quadras um do outro’’, conta Rosaldo, que afirma que os dois estão juntos até hoje.

Os ouvintes usam pseudônimos. ‘‘Evangélica a espera de um cristão’’, ‘‘Júnior nº. 18’’, ‘‘Parafuso atrás de uma porca’’, ‘‘Leão em busca de sua leoa’’. O ponto de encontro, muitas vezes, é o Clube dos Solitários: em nome do amor. A história do baile, organizado pelo locutor, inicia-se em 1989, na sede social do Clube Juventus. Começou pequeno e motivado pelos ouvintes do programa. Com 20, 40, depois 100 pessoas.

Em 1989, Nilda Hanq estava viúva há oito anos e em depressão, sem muita vontade de sair de casa. ‘‘Me arrumei bem. Mas, quando cheguei ao baile, o que me impressionou foi aquela quantidade de velhos, muito mais velhos do que eu.’’ Pouco depois, foi conquistada pelo ambiente, pela simplicidade e honestidade das pessoas. Acabou virando a madrinha. Na única carta que escreveu ao programa de rádio, assinou como ‘‘Amor perfeito’’. ‘‘Como a flor, detalhada como se fosse desenhada por um grande pintor.’’ Recebeu dez respostas e foi ao encontro do ‘‘Leonino Triste’’. ‘‘Mas, quando o vi, desisti. Ele era um homem triste e eu sou alegre.’’



‘‘Eu sou evangélico, solteiro, 63 anos, 1m70, 70 quilos, cor clara, sem vícios. Totalmente livre, amoroso e justo! Sou pedreiro, carpinteiro, marceneiro, mecânico de bicicleta, cozinheiro, lavador de roupas, jardineiro, pintor de placas.’’

Do pseudônimo, Um amigo cristão que topa tudo por amor e dinheiro!



Zelina Aparecida Cardoso recebe as cartas na Rádio Colombo há 23 anos. ‘‘O pessoal fala que é alto, mas não é. Que é magro, mas não é. Diz que é bonito, mas vixe!’’. Ao custo de R$ 8, cada uma delas é lida no ar por Rosaldo. De voz imponente e a experiência de mais de 40 anos no rádio, ele as torna mais bonitas no programa que apresenta de segunda a sexta, das 22 às 23 horas.

Baile é ponto de encontro dos casais


‘‘Meus filhos foram indo, cada um cuidar de sua vida. E eu fiquei sozinha e a solidão é muito dolorosa, muito triste. Durante o dia eu saio, sempre tenho alguma coisa para fazer. Mas à noite a solidão é esmagante.’’

Libriana Carente


Às sextas, sábados e domingos acontece o Clube dos Solitários: em nome do amor. Lá, librianas carentes, leões solitários e geminianos à procura se encontram. Nas sextas-feiras, tem aula de dança. Neiva de Fátima, 49 anos, coordena o grupo de professores voluntários. ‘‘Hoje, as mulheres estão muito mais atacadas e chegam junto nos homens’’, conta a professora que também conheceu seu marido ali, em 2004. ‘‘Eu cheguei para ele, que tem a metade da minha idade, e disse: ‘Dançamos de um jeito parecido. Vamos fazer isso juntos?’.’’

Marcos Pauli de Lima, 25, não se incomoda com a diferença de idade. Neiva pensa diferente. ‘‘Uma vez uma moça deu em cima dele. Fui tirar satisfação e ela me pediu desculpas, pois achou que eu era a mãe.’’

Lima é um dos tantos jovens no baile. Ainda que a média de idade passe com tranqüilidade dos 40, a juventude vai em peso. ‘‘Tá dando muita rapaziada porque danceteria não tem tanto contato físico’’, explica. Ele se dá bem com a família de Neiva. A professora já arrumou esposa para o irmão e para um de seus filhos no baile. E ali aconteceu o noivado e o chá de bebê, além de outros 800 casamentos. No Clube dos Solitários, os casais dançam coladinhos no vanerão, bolero e forró.

O encontro das idades é freqüente. No canto do salão, um rapaz com vinte e muitos poucos anos está de lero-lero com uma senhora com mais de 70. ‘‘Eles estão juntos há três meses. E ela está chateada porque o viu dançando com uma moça’’, diz o sorridente Mauro dos Santos, 42, que conheceu a namorada Rosalda Boulade, 45, no baile há cinco anos. Juntos, acompanharam no salão um dos momentos mais engraçados de suas vidas. ‘‘Você não consegue imaginar o que foi ver uma mulher se jogar no chão e sair de gatinho, se arrastando de mansinho por baixo das mesas até a saída. Acho que estava se escondendo do marido ou do filho. Sempre damos risada quando lembramos’’, conta Santos, que se considera um pé de valsa. (R.U.)

Pista em chamas



O professor de dança gaúcha Xirú Pampeano não entende o jeito do povo curitibano dançar: ‘‘É falsificação isso!’’

Rosaldo Pereira, 60, é o DJ. Veste um chapéu que não é o que ganhou de Sérgio Reis. ‘‘O cantor me deu um de presente. Quando visitou o clube me entregou e disse: ‘Rosaldão, esse é para te dar sorte’.’’ O original queimou junto com toda a estrutura do clube, em 2006, quando funcionava na Travessa da Lapa. Naquela época, o espaço recebia mais de 700 pessoas nos dois salões. Pereira não tinha seguro e estima suas perdas em R$ 600 mil. Alguns suspeitam de incêndio criminoso, mas ele acredita na sugestão dos bombeiros: curto circuito na cozinha. ‘‘O duro foi que era a única parte que faltava reformar. Já tinha comprado tudo: cimento, encanamento, azulejos. A reforma seria no final do ano.’’ O incêndio chegou pouco antes, em setembro.

O atual endereço na Barão do Rio Branco 580, comporta menos pessoas. No último domingo, foram 156 homens e 182 mulheres.

Os trajes são variados, mas o que chama mais atenção é o do gaúcho que se veste com as cores do Internacional. ‘‘Você quer o nome artístico ou de batismo?’’, questiona o homem de bombacha, bota branca e faixa vermelha na cabeça. ‘‘De batismo, sou Joel Pereira. Mas me conhecem como Xirú Pampeano. Sou uma lenda viva.’’ Ele explica. É uma lenda, pois é tataraneto de Sepé Tiarajú, um índio que teria protegido a fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

Xirú é professor de dança gaúcha e dançarino dos bons. Atravessa o salão, sempre renovando os parceiros. Não nega fogo. ‘‘Pode ter 40, 50 ou 100 anos, eu vou aceitar o convite da prenda e dançar.’’ Pouco depois, explica que não convida as ‘‘prendas’’, pois já viu muitas delas rejeitando pedidos no salão. Xirú dá aulas há 24 anos. ‘‘Já viajei o País todo. Mas o povo que dança pior a dança gaúcha é o curitibano.’’ O vanerão, vanera e bugil, que segundo o professor originalmente são dançados no compasso dois e dois, em Curitiba são no dois e um. ‘‘É uma falsificação.’’ (R.U.)

Nós que somos jovens


O dançarino de axé Wellington Lopes, 16 anos, demorou para se acostumar, mas agora adora a dança gaúcha

Derblay Ferreira, 21 anos, foi levado ao baile por sua avó Elcimar, 57. Conheceu ali a ex-namorada, com quem ficou por três anos. Foi ali também que encontrou Pricila, com quem está junto há 20 dias. ‘‘Mas já estou apaixonado.’’ Se a música gaúcha e as danças de salão podem afugentar os jovens, esse não é o caso de Ferreira e tampouco o de Wellington Lopes, 16. Enquanto seus amigos vão para o Planeta Ibiza, no Boqueirão, e no clube Millenium, em Pinhais, redutos da música eletrônica, Lopes vai ao Clube dos Solitários.

O jovem já foi dançarino de axé e conta que foi difícil se adaptar e curtir o estilo gaúcho. Vai no baile todos os domingos, o dia mais concorrido. Há um mês, conheceu Jéssica, sua alma gêmea, mas a aliança de compromisso deixou em casa. ‘‘Sou honesto. Quando fico com alguém, conto para ela e justifico dizendo que ela não foi. Ela também faz isso. Somos sinceros’’, diz. ‘‘A mulherada dá em cima dos piá mais novo, mas estou em busca das meninas.’’

Rosaldo Pereira se diverte e brinca com os mais jovens. Muitas vezes, serve de cupido, e anuncia no microfone o pseudônimo de alguém que pela troca de cartas na rádio marcou um encontro. E se ele, Rosaldo, tivesse que pensar em um pseudônimo? Ele hesita. ‘‘Locutor solitário’’, responde com certa alegria. E como você se descreveria se mandasse uma carta ao programa? ‘‘Jornalista, radialista, humilde, simples. Bom marido não sei se posso dizer que sou, bom pai, alto (1m80), 82 kg, cabelos castanhos claros. Acho que seria assim’’, conta o responsável por casamentos e encontros a fio, casado há 28 anos com Karen, que o acompanha em sua jornada. (R.U.)


SERVIÇO:
- Clube dos Solitários: em nome do amor
Às sextas-feiras, das 18 às 24 horas, entrada franca; aos sábados, das 16 às 24 horas, entrada livre até às 18 horas, depois feminino R$ 3 e masculino R$ 5; aos domingos, das 14 às 22 horas, feminino R$ 3 e masculino R$ 5.
Rua Barão do Rio Branco, 580
Contato: 41-3019-6160

- Quadro Casamenteiro
Rádio Colombo 1.020 kHz AM
Segunda à sexta-feira, das 22 às 23 horas
Contato: 3322-8483

* Reportagem originalmente publicada no Caderno Curitiba do Jornal Folha de Londrina, do dia 08/07/2008.


Making-of

Sobre o texto: um universo mágico

Ponto de partida: ouvi falar pela primeira vez do Clube dos Solitários no Carnaval de Curitiba, em 2006. Um jornalista, cujo nome não me lembro, comentou daquele universo fascinante. Na abertura da exposição da Magnum, na Capital, encontrei o redator Carlos Kenji, que me contou sobre o seu projeto fotográfico feito no clube, o que me reacendeu a vontade de fazer uma reportagem a respeito do tema.

A reportagem: conversei com o Carlos Kenji, que me contou detalhes sobre o clube e o programa. Através da Rádio Colombo, consegui contatar o Rosaldo, que foi absolutamente acessível. No dia seguinte, acompanhei a gravação de seu programa – ainda que exibido à noite, é gravado de tarde. Ele fez cópias de algumas das cartas que leu naquele dia, o que me permitiu reproduzir alguns trechos. Para a reportagem, optei por corrigir os erros gramaticais e de português, evidenciando o conteúdo dos textos. A postura é semelhante àquela que Rosaldo toma ao ler as cartas no ar. Ele chega a deixá-las mais bonitas quando faz a leitura. A rádio é um ambiente curioso, um espaço que mantém marcas de outros tempos e que ainda guarda a parte de seu acervo em vinil.

No domingo seguinte, acompanhei o baile em seu dia mais cheio. É, definitivamente, um universo à parte. Mas, de algum modo, se aproxima do ambiente de um baile da terceira idade. Foi bastante curioso ver a molecada mais jovem presente. Em certo momento, me lembrei de uma cena de “Chega de Saudade”, filme de Laís Bodanzky. Enquanto eu entrevistava um casal, uma senhora me deu uma baita beliscada na bunda. Como os jovens entrevistados comentam na matéria, as mulheres dão em cima mesmo.

s, evidenciando o contepor corrigir os erros gramaticais e de portuguitiu reproduzir alguns trechos.

Repercussão: a turma do baile ligou no jornal perguntando quando sairia a reportagem. Rosaldo comprou 15 exemplares da Folha de Londrina para levar ao clube. Conta que ficou muito feliz e comentou sobre a matéria em seu programa de rádio.

Erros, lapsos e confusões: escrevi para chuchu, o que obrigou a editora a cortar um box que explicava sobre o projeto de Carlos Kenji a respeito do clube. Projeto que, efetivamente, me motivou a fazer esta reportagem. O resultado, uma seqüência de fotografias do baile e reprodução de cartas enviadas ao programa acompanhadas de trilha sonora, é excelente, mas, infelizmente, não está disponível na Internet. O Carlinhos comentou que achou um tanto complicado disponibiliza-lo, mas, espero, que em alguma hora ele mude de idéia. É um projeto muito bacana. Abaixo, antes tarde do que nunca, reproduzo o trecho não-publicado sobre a proposta e uma das imagens feitas por ele, que abre esta postagem.

Fotos do clube

Carlos Kenji

Carlos Kenji fez um trabalho fotográfico sobre o Clube dos Solitários, que o intrigava

O redator e estudante de Filosofia Carlos Kenji, 33, mora há poucas quadras do Clube dos Solitários. Sempre que passava na frente e via a fila na entrada, ficava intrigado pelo local. ''Os dois nomes são termos quase que opostos. Enquanto 'clube' indica reunião de pessoas, 'solitários' é algo de uma pessoa só. É um nome que chama muito à atenção.'' Quando teve de escolher o tema para o Curso de Fotografia Documental, do Núcleo de Estudos da Fotografia (NEF), não teve dúvidas. Nos domingos de setembro a novembro de 2007, acompanhado de sua câmera, o clube virou seu ponto de encontro.

''Encontrei de tudo: casais que deram certo e que sempre voltavam lá, pessoas que vão para dançar e muita gente que está sempre sozinha.'' Kenji conta que tinha receio de como seria recebido, mas foi surpreendido pelo carinho e gentileza das pessoas. Aos poucos deixou de ser um estranho com uma câmera e passou a se relacionar com o local. As cartas do programa de rádio acabaram direcionando o seu trabalho, que se tornou uma projeção com fotografias e trilha sonora. ''O recorte é que, no fundo, as pessoas estão procurando. O que não é diferente dos outros bares na cidade, onde os freqüentadores também estão em busca de alguém.''

De seu trabalho, ficou um mural de fotos no clube. E Kenji virou freqüentador? ''Voltei uma vez para dar um oi para o pessoal. Não vou mais lá porque sou boêmio. O meu horário para sair é só depois das 23 horas.'' (R.U.)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Marketing do adeus

Empresas funerárias e suas diferentes abordagens na hora de vender produtos relacionados ao descanso eterno

Rafael Urban
Equipe da Folha*

Letícia Moreira

Carlos Sysocki buscou diversificar seus produtos. São caixões que chegam a 2,18m ou que agradam fanáticos por futebol

Nas viagens que Andrei Matzenbacher tem feito para os congressos de cemitérios pelo País, uma coisa tem lhe chamado à atenção: a maneira agressiva como empresas do ramo funerário anunciam seus produtos. ‘‘No Rio de Janeiro conheci um caso incrível. Um cemitério colocava um outdoor ao lado de outro de uma operadora de celular que anunciava ‘Vivo, a partir de R$ 200’. Ele usava o mesmo boneco da empresa de telefonia, acompanhado dos dizeres ‘Morto, a partir de R$ 3 mil’. Esse tipo de humor não funciona com o público do Sul, em especial o curitibano.’’

Matzenbacher é o diretor do grupo Jardim da Saudade, com sede em Curitiba e unidades em Pinhais e Blumenau, além do Crematorium Metropolitan também na capital paranaense. A empresa começou com seu avô Jayme, em 1969, com o slogan ‘‘A solução moderna para um velho problema’’. A proposta era representar o conceito de cemitérios-parque, importado dos Estados Unidos. ‘‘Todo mundo tinha aquela idéia dos cemitérios públicos, naquele ambiente feio e triste. O ambiente mais alegre, com um campo florido e árvores, ajuda a confortar a família. Tem gente que até vem correr aqui de manhã’’, comenta, citando o caso dos corredores que recentemente viraram tema de reportagem na TV.

Hoje, o crematório do grupo trabalha com o slogan ‘‘Tranqüilidade para quem fica’’, em uma propaganda que está sendo anunciada nas rádios. ‘‘No momento difícil, os gastos já são muitos e é complicado para sair em busca de um lote. Por isso, buscamos que as pessoas façam previdência.’’ No caso da cremação, o custo de R$ 3.150 pode ser parcelado em até 24 vezes.

O pontagrossense Carlos Sysocki, que fez ‘‘33 anos há muito tempo atrás’’, fica esperando o cliente bater em sua porta. ‘‘O dentista não sai por aí batendo de porta em porta. Quando você tem dor de dente vai até o consultório. O mesmo acontece com o meu cliente aqui’’, diz Sysocki, dono da Funerária Paranaense desde 1975. Ele não tem vendedores e diz ser contra o uso de propaganda em seu ramo.

Sysocki conta que é do tempo em que se tirava a medida do morto. Hoje, além do caixão padrão com 1,90m de comprimento, vende muitos outros, na tentativa de ampliar o seu público. ‘‘É caixão para judeu, católico, evangélico, maçônico’’, explica enquanto aponta para um deles com uma pomba branca e uma mensagem da Bíblia.

No final da década de 1980, um pedido inusitado o levou a produzir uma nova série. A família de um torcedor do Paraná Clube queria o caixão do pai com o azul, vermelho e branco do time. Desde então, já fez alguns com as cores dos times da capital e de outros tantos. Cada um custa R$ 1.710. ‘‘Mas é exceção. A maioria sai com a bíblia ou com a imagem de Cristo na tampa.’’

Sysocki é fã da dupla sertaneja Milionário e Zé Rico, e repete o estilo deles pintando a unha do mindinho direito de vermelho. Além da funerária, é dono do Cemitério Ecológico Jardim da Colina. Nos carros do empreendimento, a frase destacada é ‘‘Respeito ao ser humano e à natureza.’’ ‘‘Ecologicamente, é o mais correto possível. As pessoas se preocupam muito com isso e ligam para saber o porquê do ecológico’’, diz.

Sysocki também é fã do Paraná Clube. Para o seu funeral, não tem dúvidas: vai de caixão tricolor. ‘‘As previsões são boas. Não bebo, não fumo. Então vai demorar. O meu time já está enterrado, mas meu desejo é um só: vou deitado com meu Paraná.’’

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Cemitério tem telemarketing com 60 pessoas

À primeira vista, pode parecer um aviso aos apressadinhos no trânsito. ''Não tenha pressa, mas quando for vá de primeira.'' O anúncio em cada um dos 25 carros da frota do Cemitério Vertical tem outro objetivo. ''Usamos esse slogan para quebrar a idéia de que cemitério é triste. Com a comédia, rompemos a barreira'', explica Carlos Alberto Camargo, o diretor comercial da empresa. O slogan foi criado por seu sócio Nelson Fernandes e é utilizado desde a época da fundação, em 1989. ''Não somos publicitários. É algo do instinto mesmo'', comenta o diretor.

Camargo gerencia uma equipe de 60 pessoas no telemarketing. Quando entram, os operadores passam por um curso para saber o que e como falar. O público alvo é a partir dos 40 anos, mas as chamadas não são aleatórias. Como em outros tele-atendimentos, a equipe de Camargo liga para pessoas indicadas por amigos ou familiares que já são clientes. ''E como ligamos em nome de alguém, não é o cemitério que bate na porta.''

Um terceiro modo de chegar até o cliente é pelo PAP, o porta em porta. Porta aberta, os vendedores logo soltam a primeira fala. ''Responda se souber e se souber ganhe um brinde.'' Um papel com uma questão de múltipla escolha é entregue ao dono da casa em que opções para colocar o 'x' são duas. ''No Cemitério Vertical, os corpos são sepultados em pé ou deitados?'' Na ficha, também há espaço para colocar dados pessoais e um número de telefone. Na seqüência, um atendente entra em contato para combinar a entrega do brinde e oferece os serviços da empresa. A pergunta também circula a cidade em um pequeno caminhão, que ajuda a propagandear o conceito.

O Cemitério Vertical oferece um plano de assistência funerária familiar, que custa a partir de R$ 1.650, divididos em 36 vezes. Depois, se paga uma mensalidade de manutenção. ''Mas pode ser muito mais caro. Fazemos um cálculo atuarial, em que levamos em conta a idade dos envolvidos e de quanto vai custar o seu funeral.'' (R.U.)

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Entre a ironia e o chavão

Ernani Buchmann, há 35 anos no mercado publicitário, nunca trabalhou em uma campanha de lançamento de cemitério ou de alguma empresa que ofereça serviços de assistência funeral. ''Só não aceitaria permuta. Iria querer receber à vista'', brinca. O publicitário diz que em Curitiba pouca gente já desenvolveu esse tipo de comunicação, por ser um mercado restrito e que anuncia muito pouco. ''E, em geral, o que se faz é de mau gosto.''

Alessandra Nogueira Saltori, diretora de criação da Ideale Comunicação e Design, teve a primeira experiência há pouco tempo, quando foi contatada pelo Crematorium Metropolitan. ''É um produto que é difícil não cair na ironia ou no chavão. Resolvemos puxar para o lado vendedor sem que a propaganda se tornasse agressiva.''

O spot, que está circulando em uma rádio da capital, finaliza com o slogan ''Tranqüilidade para quem fica'', que foi bem recebido pela direção da empresa. ''Pois o meu produto não é xampu ou celular, que são positivos e que permitem o uso de promoções. O meu produto é negativo e exige uma sutileza. Eu não posso anunciar uma promoção de lote até 31 de julho pela metade do preço'', completa Andrei Matzenbacher, diretor da empresa. (R.U.)

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Urna ecológica

Letícia Moreira

Essa urna é para quem já escreveu um livro e teve um filho

Se você já teve um filho e escreveu um livro, pode ficar tranqüilo, deixando a árvore sob responsabilidade dos descendentes. À venda na Funerária Paranaense, a urna ecológica, feita de fibras orgânicas, é biodegradável. Ela acompanha terra e sementes de árvores que dão flores.

Após a cremação, basta colocar as cinzas (que em geral chegam de 1,5 a 2 quilos) com a terra e as sementes e plantar a urna. Há dois tamanhos: pequeno (R$ 350) e grande (R$ 450). Se preferir deixar as cinzas na estante, uma urna de madeira em formato de enciclopédia sai por R$ 850. (R.U.)



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Slogans


- ''A solução moderna para um velho problema'', do Jardim da Saudade, em 1969, quando introduziu o conceito de cemitérios-parque

- ''Tranqüilidade para quem fica'', do Crematorium Metropolitan, em spot que está sendo veiculado nas rádios

- ''Respeito ao ser humano e à natureza'', do Cemitério Ecológico Jardim da
Colina, divulgado nos automóveis da empresa

- ''Não tenha pressa, mas quando for vá de primeira'', do Cemitério Vertical, usado desde sua criação em 1989 (R.U.)


* Reportagem originalmente publicada no Caderno Curitiba do Jornal Folha de Londrina, do dia 03/07/2008.

Sobre o texto: matéria em que me perguntava: será que vai chegar a algum lugar?

Ponto de partida: estava a duas quadras de casa quando vi o carro com a frase: “Não tenha pressa, mas quando for vá de primeira.” Propus a pauta para a editora da sucursal, Adriana de Cunto, a Drica, que topou na hora: como as empresas de produtos relacionados ao descanso eterno utilizam ferramentas de marketing? Inicialmente, pensei em batizar a reportagem de “Marketing da morte”.

A reportagem: na seqüência, descobri que o slogan-ponto-de-partida já era utilizado há 19 anos. Quando liguei para o vendedor que dirigia aquele carro, ele me contou algumas coisas de seu trabalho, mas a fala mais interessante mesmo foi a de seu chefe, que falou da proposta agressiva de marketing da empresa – a qual envolve serviço de telemarketing. Durante o processo de reportagem descobri que outras empresas do ramo também fazem chamadas oferecendo terrenos em cemitérios e planos funerários. Por alguma razão, o diretor comercial não me permitiu que chegasse até o seu sócio, Nelson Fernandes, o criador dos slogans.

Foi outro veículo com plotagem que me levou ao sr. Sysocki, o inventor dos caixões de times de futebol. Descobri que a empresa que anunciava um cemitério ecológico era dele, o mesmo dono da Funerária Paranaense. Quando liguei para lá, conversei com uma menina que se apresentou como telefonista. Depois, quando perguntei seu sobrenome, ela disse “Sysocki”, e, hesitante, contou ser a filha do senhor Carlos. Na seqüência, narrou diversas histórias, entre elas a do caixão de times de futebol, idéia pela qual seu pai é famoso e já foi tema de reportagem da revista Time, ainda nos anos 1990, fato pelo qual se orgulha. Fui entrevista-lo em uma tarde na funerária. Ele é uma figura curiosa. Como com muitos do ramo, uma desconfiança inicial fez parte da conversa. Como se realizasse uma pergunta interna: mas que diabos quer esse repórter? Para todos os entrevistados desta reportagem, tive de explicar quais as intenções da matéria.

Repercussão: a temática interessou aos amigos da publicidade. Alguns elogiaram o ineditismo do tema e André Amorim, colega de redação, contou que se divertiu muito lendo a reportagem.

Erros, lapsos e confusões: nesta, uma confusão trágica. Na diagramação, a foto em que aparecia Nelson Fernandes, o criador de slogans como “No Cemitério Vertical, os corpos são sepultados em pé ou deitados?” e daquele que foi o ponto de partida desta reportagem, com a frota de veículos de propaganda de sua empresa foi trocada por outra imagem, descontextualizada. A foto, muito interessante, dos carros e de um pequeno caminhão foi confundida por uma em que aparece um funcionário da Funerária Paranaense, empresa que não tem nada a ver com o Cemitério Vertical. Reproduzo abaixo a foto da confusão que foi acompanhada da legenda "Nelson Fernandes criou o slogan que circula em 25 carros pela cidade em 1989, quando fundou sua empresa", que, como conto acima, não tem a ver com a foto:

Letícia Moreira

domingo, 29 de junho de 2008

As muitas vidas de Valêncio Xavier

Foto: Cristiane Lemos

Os cineastas Pedro Merege e Beto Carminatti com Valêncio Xavier (ao centro) e seu fusca em foto de 2004: paixão pela cultura

Aos 75 anos, escritor radicado em Curitiba ganha cinebiografia, adaptação de sua obra para as telonas e versão de seu livro mais famoso para teatro

Rafael Urban
Equipe da Folha*


Marcos Borges
Beto Carminatti já pensa em um terceiro longa-metragem: ‘A vida e obra dele são muitos filmes


Marcos Borges
Gravação na Cinemateca de Curitiba tomada pelos amigos e familiares que vão ajudar a reconstruir em filme a memória de Valêncio Xavier

Beto Carminatti, como todo adolescente típico dos anos 70, não era dos mais silenciosos quando assistia a um filme no cinema. Na Cinemateca do Museu Guido Viaro, criada em 75 e mais tarde, em 98, rebatizada como Cinemateca de Curitiba, Carminatti ia com freqüência com seu irmão Rui Vezzaro e as respectivas namoradas. Era bagunça na certa. ''E o Valêncio não curtia isso. Para ele, cinema era algo sagrado, que não permitia essas molecagens'', conta Carminatti. O Valêncio de sua frase é, de batismo, Valêncio Xavier Niculitcheff, o homem por trás da criação da Cinemateca, espaço que deu origem a toda uma geração de cineastas.

''Com toda e absoluta certeza, esse grupo, conhecido como Geração Cinemateca, não existiria sem a atitude de Valêncio. O que ele fez foi um ato heróico'', enaltece um dos expoentes do grupo, o cineasta Fernando Severo. O ato de heroísmo foi promover a criação de um espaço cultural dentro da prefeitura da cidade, com poucos recursos e uma programação vasta. ''Vi diversas retrospectivas e pela primeira vez muitos dos filmes do Cinema Novo. E lá tive aula de montagem com o Peter Przygodda, editor dos filmes do diretor alemão Wim Wenders, e de direção com (os cineastas brasileiros) Ozualdo Candeias e o Rogério Sganzerla'', lembra.

Xavier não é apenas o criador do espaço que deu abertura a toda uma geração do cinema paranaense. É também um escritor de reconhecimento nacional, celebrado a partir de 98, quando sua obra passou a ser editada pela Companhia das Letras. ''O Mez da Grippe e Outros Livros'', escrito desta forma, com grafia de época, reúne uma série de trabalhos e foi listado entre os mais vendidos da Revista Veja.

''Ele já tinha sentido esse reconhecimento antes, quando foi para São Paulo, onde escreveu no Estado e na Folha. Foi aí que ele se deu conta do quanto era admirado'', explica a filha de Valêncio Xavier, a engenheira de alimentos Ana Pasinato Niculitcheff, 35. ''Meu pai sempre falou da dificuldade de ser reconhecido em Curitiba e entendia isso como uma característica do povo daqui.''

Há três meses nasceu Laila, filha de Ana e a primeira neta de Valêncio. ''É só uma pena que ele não esteja bem para curtir esse momento. O Alzheimer faz com que tenhamos de dividir as atenções entre ele e a pequena.'' Depois do diagnóstico, em 2002, Valêncio Xavier ainda escreveria um conto publicado no livro ''Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua e Outros Livros''.

Xavier veio para Curitiba em 68, para trabalhar no Canal 6, deixando para trás a São Paulo da infância, retratada no livro ''Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentido'', e o emprego com Sílvio Santos. Na época, escrevia para os programas do apresentador que comprava horários nas TV Globo e Tupi. A função incluía roteirizar, ao lado de Tulio de Lemos, ''Namoro na TV''. ''Mas meu pai não se considerava paulistano. Ele dizia: 'Sou curitibano'. E por isso mesmo escreveu sobre a cidade'', lembra a filha Ana.

Em ''O Mez da Grippe e Outros Livros'', ele retrata o surto da gripe espanhola na Curitiba de 1918. Usa de imagens de arquivo, jornais da época e trechos que ele mesmo escreveu e que descrevem a trajetória de um estuprador. A estética não-usual em que combina imagem e texto é uma marca de sua obra. ''Ele foi dos escritores precursores da multimídia'', comenta Cristovão Tezza, escritor nascido em Lages (SC), mas que mora no Paraná desde os dez anos de idade.

A opinião de Tezza é compartilhada pelo professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Paulo Venturelli. ''O trabalho de Valêncio é extremamente de vanguarda. E quebra a estética realista, marca da literatura brasileira atual.''

Venturelli entende que Xavier é um autor também reconhecido no Paraná. ''Há muitos alunos de mestrado e doutorado escrevendo teses sobre a sua obra'', diz. ''Pela sua inquietude e preocupação metalingüística, se destaca dos demais. Valêncio Xavier é um autor de ponta.''


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Biografia e adaptação para longa-metragem

De freqüentador assíduo da Cinemateca, nos anos 70, Beto Carminatti virou cineasta e leitor compulsivo da obra de Valêncio Xavier. ''Ele escreve como se estivesse fazendo o roteiro para um filme.'' Carminatti levou ao pé da letra a sua afirmação e no lugar do roteiro levou o livro ''O Mez da Grippe e Outros Livros'' para o set de filmagem na adaptação da obra que realizou ao lado de Pedro Merege, também discípulo do escritor e cineasta.

O filme, que já está pronto, deve ser lançado no segundo semestre. ''Estava preocupada, pois apesar de a obra do meu pai ser bastante cinematográfica, achava que era impossível de ser adaptada ao cinema. Mas fiquei orgulhosa. É um filme que carrega o clima dos livros'', comenta Ana Pasinato Niculitcheff, filha do escritor.

O longa ''Mystérios'' nasceu da parceria com Merege, com quem Carminatti já tinha trabalhado no belo curta ''O Mistério da Japonesa'', também adaptado da obra de Valêncio. O cineasta, porém, não quis parar por aí e já está filmando um segundo longa. Intitulado ''As Muitas Vidas de Valêncio Xavier'', o filme é uma biografia sobre o escritor.

Há três anos, com a pesquisadora de cinema Solange Stecz, gravou algumas cenas com Valêncio em sua casa. O material será somado àquele que Carminatti está realizando agora.

''A cena de abertura é a Cinemateca sendo tomada pelas pessoas que vão ver os seus filmes e, depois, através de depoimentos, reconstruir a história do Valêncio'', explica o diretor.

A pesquisadora Solange Stecz fala com carinho de Xavier. ''Quando ainda estava na faculdade de Jornalismo, ganhei um concurso de crítica na Cinemateca. O prêmio era um livro de cinema. Fui conversar com Valêncio e lhe disse que queria o 'Curitiba de nós', escrito por ele e ilustrado pelo Poty (Lazarotto). Ele gostou tanto daquilo que não apenas ganhei o livro como o cargo de estagiária.''

Harry Luhm, 78 anos de idade e boa parte deles dedicados ao cinema, conheceu Valêncio quando o escritor foi diretor do Museu da Imagem e do Som (MIS), nos anos 80. ''Ele era extremamente dedicado e um tanto quanto temperamental'', conta.

O jeito forte e por vezes ríspido de lidar com as pessoas é lembrado pelo colega Fernando Severo. ''Como todo gênio, ele tinha os seus rompantes.'' Luhm recorda de algumas noites que Valêncio passou em sua casa telecinando o filme argentino ''Tango'', o que foi feito debaixo de muita discussão. ''O Valêncio sempre tinha razão e eu discutia com ele por achar que eu tinha mais razão, mas ele nunca concordava.''

No projeto do documentário, Carminatti ainda propõe uma viagem a Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo para gravar depoimentos de personalidades como José Rubens Siqueira, Jean-Claude Bernardet, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho e Arnaldo Antunes; pessoas que tiveram contato com Valêncio Xavier ou que têm uma relação forte com a sua obra. O cineasta pretende ainda restaurar trechos dos curtas de Valêncio a serem utilizados no longa.

A obra cinematográfica do paulistano radicado em Curitiba foi toda realizada de maneira independente e com condições técnicas simples. ''A lentidão da tecnologia não alcançava a velocidade de seu raciocínio'', comenta Carminatti. (R.U.)


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'Grippe' no teatro

Não é apenas no cinema que a obra de Valêncio Xavier ganha destaque. No dia 24 de julho, estréia em Curitiba ''Mez da Grippe'', no Teatro Novelas Curitibanas. No palco, a Pausa Cia. de Teatro, companhia jovem, criada em 2005, busca a sensualidade no texto de Xavier.

''E como faz para levar isso ao teatro? Essa resposta a gente ainda não tem'', comenta o ator da companhia Rodrigo Ferrarini. ''Consideramos o (Paulo) Leminski e o (Dalton) Trevisan, mas foi na obra de Valêncio que encontramos o desafio maior.'' O trabalho será dirigido pelo carioca Moacir Chaves, que Ferrarini considera o melhor diretor de atores do País. (R.U.)


* Reportagem originalmente publicada no Caderno Folha 2 do Jornal Folha de Londrina, do dia 29/06/2008.

Sobre o texto: o “Mez da Grippe” é arrebatador. A reportagem é a minha primeira colaboração ao Folha 2, caderno de cultura do jornal.

Ponto de partida: ler “Mez da Grippe” durante a faculdade foi algo incrível. Me dava conta ali que outra literatura era possível. Mais tarde, ainda na universidade, descobri que Valêncio não era apenas um baita escritor, mas o grande responsável pela Cinemateca de Curitiba. Aumentou aí a minha curiosidade de saber um pouco mais sobre sua vida. As filmagens da cinebiografia concluíram com chave de ouro essa idéia.

A reportagem: aproveitei para ler as obras de Valêncio que ainda desconhecia. Quando fiz as primeiras entrevistas, ainda por telefone, uma questão começou a martelar minha cabeça. Merege, Solange, Severo e mesmo Carminatti me sugeriram que eu não deveria citar a doença que acomete Valêncio desde 2002: o Mal de Alzheimer. “A família não gostaria de ver isso publicado”, me disseram. Carminatti chegou a propor que eu conhecesse Valêncio, o que não foi aceito pela família. De algum modo, já estava resignado que a família não iria dar um depoimento.

No dia 24 de julho, uma terça-feira, os ventos mudariam de direção. Fui acompanhar a gravação dos primeiros depoimentos de “As muitas vidas de Valêncio Xavier” – título do qual me aproveito e utilizo na matéria. A Cinemateca estava tomada não apenas pelos amigos e conhecidos de Valêncio, mas por Ana, sua filha, com a neta Laila no coloco. Ela estava um tanto receosa, mas topou falar comigo numa boa. Não toquei no assunto da doença de seu pai, mas, por alguns momentos, ela citou o assunto, comentando que tinham de dividir as atenções entre ele a pequena Laila. Conversamos por um bom tanto, em que ela me falou de como era ser filha de Valêncio Xavier. Escrevi um trecho sobre a conversa, que acabou cortado pela editora da versão final (afinal de contas, a página de jornal tem seus limites físicos), e que reproduzo abaixo:

Eu queria um pai normal
Quando era criança, Ana Pasinato Niculitcheff escutava alguns nomes estranhos nas constantes conversas que seu pai tinha ao telefone: Polanski, Visconti e Saura. Pouco mais tarde, se encantaria com a exibição de “Bodas de sangue”, na Cinemateca. Depois, viveria próxima daquele universo, chegando a trabalhar na bilheteria de um dos cinemas administrados pelo pai. Quando adolescente, estava certa de uma coisa: queria um pai médio, um pai normal. “Eu achava que se ele fosse advogado, médico ou dentista não passaríamos tanta dificuldade”, conta, uma vez que Xavier não entrava apenas com a paixão e dedicação em seus projetos como com o dinheiro do próprio bolso.

Ana sentia-se livre para fazer suas escolhas. Conta que seu pai nunca insistiu para que visse um filme ou lesse uma obra do escritor argentino Jorge Luis Borges. “Eu falava: ‘Pai, faz a minha tarefa da escola?’, e ele me dizia: ‘Filha, você tem que aprender sozinha’.” Na adolescência sentiu a pressão por ter um pai especial, mas de uma coisa estava certa: queria trilhar um caminho diferente. “Olhava para ele e pensava. ‘Não quero ser comparada a você.’ Também não queria ser apenas uma versão medíocre do que ele era.” Ana acabou optando pela engenharia de alimentos. No mundo das artes, chegou a flertar com a fotografia, o que deixou o pai bastante animado.

O que parecia um fardo, mais tarde Ana percebeu como uma dádiva. “Hoje dou graças a Deus por ter nascido nessa família. Noto que o que há de melhor em mim eu aprendi com ele.” (R.U.)

Depois, tirei algumas dúvidas com Ana pelo telefone. Sua mãe, dona Luci, não quis dar entrevista. Mas a filha fez a ponte, repassando algumas perguntas simples. Eu precisava saber qual a época que tinham vindo em definitivo para Curitiba. A voz de dona Luci, que eu escutava ao fundo da ligação, lembrava dos detalhes. Falei de um livro que estava buscando (“Rremembranças...”) e Ana me disse que eu poderia buscá-lo em sua casa no dia seguinte, pois ela tinha um exemplar para me dar. A sala de estar da casa de Valêncio Xavier, no bairro Ahú, é pequena e aconchegante. Nas paredes, algumas pinturas e duas gravuras do amigo Poty. Ana chega e se diz preocupada por me fazer esperar. Eu, do lado de cá, estava feliz por ela me dar a oportunidade de estar ali. Ela me apresenta o livro ''Rremembranças da Menina de Rua Morta Nua e Outros Livros'', o último publicado por Valêncio e me diz que aquela cópia é para mim. Lamenta por Valêncio não poder autografá-lo.

“Uma coisa sobre esse livro é que o meu pai queria que tivesse sete contos, pois tem um em que ele trabalha com o número 7. Por isso, ele escreveu o conto ‘Coisas da noite escura’. É o único publicado e escrito depois do diagnóstico da doença. E, que me lembre, é a primeira vez que conto isso para alguém.” Ana assentiu: sim, aquela era uma informação que poderia estar na matéria. Fiquei triste, pois, na edição, parte do trecho acabou cortado e o nome do conto acabou ficando de fora. “Coisas da noite escura” encerra-se assim: “O padre tina rosto cinzento e os olhos vermelhos, as unhas compridas e afinadas na ponta, isso tudo me deixou assustado e resolvi sair: ‘Boa noite senhor padre, vou para o hotel’. ‘Não, não vai. Vai ficar aqui’, disse ele. E me matou, eu Valêncio!

Estou morto.”

“Rremembranças” é de algum modo, um retorno ao “Mez da Grippe”. Ana ainda me conta que “Macao”, um dos contos do livro, é um dos favoritos de seu pai. Das coisas que não couberam na página de jornal, essa matéria foi pródiga. Foram muitos depoimentos interessantes que ficaram de fora – como os de Eloi Pires Ferreira, Pedro Merege ou mesmo outros trechos de Severo, Carminatti e Solange. Tentei contato com a editora que levou Valêncio à Cia. das Letras, mas não consegui falar com ela. Por alguma razão que desconheço, ela não topa falar do assunto.

Ainda me restava a questão que me atormentava. Conversei com a editora da sucursal, Drica, que falou: “Rafael, se não aparece na matéria o porquê de ele não dar um depoimento, isso só chama mais à atenção das pessoas.” Matéria terminada, eu liguei para Ana, filha de Valêncio. – Olá Ana. – Ah! Oi, Rafael. – Ana, gostaria de citar a doença de seu pai na matéria, mas quero que seja algo sutil. Você topa que eu leia o trecho para você e você me diz se está razoável? – De acordo. – (aqui eu leio o trecho...) – Rafael, está respeitoso. Gostei sim. Pode colocar (...) – assim, um peso de algumas toneladas deixou o meu peito.

Repercussão: Eduardo Baggio, cineasta, amigo e professor de cinema, leu a matéria e comparou o trabalho ao de um cronista, relatando o seu tempo – idéia que, por sinal, me apetece. Sugeriu a leitura das crônicas jornalísticas de Rubens Braga. Severo e Solange leram e gostaram da matéria, sem maiores exaltações. A editora do caderno Folha 2, de Londrina, Phoenix Finardi, ficou um tanto furiosa com o tamanho da reportagem que enviei. Por um engano, contei errado os caracteres e ultrapassei uns 30% o permitido – o que levou ao corte do trecho que reproduzi acima e a cortes no box sobre o longa, especialmente trechos em que ambientava a gravação. Quando devolvi os livros que Ana me emprestou (além do que ela me deu ela deixou comigo um livro sobre a história da TV no Paraná e outro sobre a Cinemateca de Curitiba, que reproduz a bela carta de fundação), deixei um exemplar do jornal com ela. Porém, desde então não nos falamos. Não sei como a família recebeu a reportagem.

Beto Carminatti achou tenebrosa a escolha de sua foto, com uma lâmpada sob seu rosto e que abre a página de jornal. "Os amigos do norte (do Estado) me ligaram tirando sarro, dizendo que parecia que eu tinha saído nas páginas policiais", me disse Carminatti ao telefone bastante entristecido. Quanto ao texto, ele julgou que "tentou tratar de diversos assuntos, mas que ficou bacana", comentou, por fim, sem muita exaltação. "Cara, fiquei tão abalado com a foto, tão chateado, que nem dei muita bola para o texto. E não foi um, nem dois, muita gente me ligou falando da imagem. Confiei no fotógrafo; na hora de fazer a foto, não achei que ele cometeria tamanha infelicidade."

Erros, lapsos e confusões: a grafia de época de ''Rremembranças” acabou ficando sem o segundo “r”. Tinha avisado a editora sobre “Mez da Grippe”, mas não deixei claro que a grafia não usual também era o caso do outro livro.

Para completar, segue um pequeno quadro com as obras de Valêncio Xavier publicadas pela Cia. das Letras:

"O mez da grippe e outros livros"
328 páginas, Companhia das Letras (1998), R$ 59

"Minha mãe morrendo e o menino mentido"
224 páginas, Companhia das Letras (2001), R$ 53

"Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros"
144 páginas, Companhia das Letras (2006), R$ 42,50