terça-feira, 24 de junho de 2008

José Carlos Pimenta, sala dois

Ficção

Mais um refresco entre uma reportagem e outra. Segue o meu segundo conto publicado na sessão “Ligeiras”, do Caderno Curitiba

Rafael Urban
Equipe da Folha*

Das coisas que eu mais gostava de fazer na vida, ficar na fila do posto de saúde não era certamente uma delas. Depois, porém, quando parei para repensar sobre aquele dia, tive certeza de que aqueles berros alucinados só poderiam ser um indício de horas de espera não apenas suportáveis como divertidas.

''José, é você'', ouvi alguém chamar pelo meu nome aos prantos. O choro era falso, meloso. O sujeito, notavelmente desconhecido, insistia em me chamar pelo nome de batismo. E eu seguia com a mesma certeza de que não o conhecia.

Aline, Débora, Bárbara. Lembrou até de uma volta no parque no dia em que eu estava em dúvida em qual delas chamar para o baile de formatura. ''Não, não me lembro de você'', respondi à pergunta insistente. Sim, mas Mônica, Jéssica e Gabriela estavam naquele baile também. ''Sim, eu também jamais esqueceria do vestido verde de Jakeline'', comentei. E, claro, era inevitável concordar que o campo nos fundos da casa dos avós de Pablo tinha mais terra do que qualquer outra coisa que o valha. A surpresa foi maior quando recordou de um gol antológico que fiz do meio campo com a canhota. ''Sim, joguei com Huguinho, Bruno e Filipe'' confirmei, convicto. ''Não, não me lembro de jogar contra você'', lhe disse.

Olhei para o lado e peguei a revista Veja que trazia na capa a foto da posse de Geisel. A imagem era uma das famosas do Sérgio Sade, fotógrafo paranaense e criador da editoria de fotografia da revista. Não tive tempo de folheá-la. ''Marcinha? Quem mesmo era a Marcinha?'', tampouco tive tempo de responder à própria pergunta. Claro, Marcinha era a professora de matemática que reprovou o Jorge, aluno dos mais estudiosos da turma. ''Futebol? Tive de abandonar. Não era, como imaginava, um Garrincha.''

A idéia de ler a revista volta à cabeça, mas logo desisto. O moço, desconhecido, estava repleto de lembranças íntimas. Dizer que foi no cinema com a minha irmã foi surpresa das grandes. Foram assistir a um western. Contei-lhe que, hoje, ela gosta dos filmes de caubói do galã Clint Eastwood. E, sim, está casada.

Me surpreendi ao saber que o Wágner agora era pai de gêmeos, que o Juliano tinha se casado duas vezes. Fiquei triste com a notícia de que o Marcos havia morrido em um acidente de trânsito. Ele era um amigo dos bons e eu imaginava que um dia ainda iríamos nos cruzar - quem sabe em Colombo, região metropolitana da cidade, onde, me contaram, o Marcos estaria morando. Relembrando deste dia na fila do posto de saúde, dou risada ao pensar na voz impostada da recepcionista. ''José Carlos Pimenta, sala dois.''


* Conto originalmente publicado no Caderno Curitiba do Jornal Folha de Londrina, do dia 24/06/2008.

Um comentário:

dianis610 disse...

Admiro seu talento para escrever, você é muito bom no que faz... quando vai postar mais contos?

um abraço!

Diana