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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Panela Velha

Ficção
Mais um refresco. Publicado na sessão “Histórias”, do Caderno Curitiba, o novo nome de batismo da “Ligeiras”.


Rafael Urban
Equipe da Folha

Foto: Nicole Lima
















Mas bá, diz a gaúcha, nem em sonho acaba o meu fôlego. Ela começa a cantar: ''Perguntaram para mim, se eu ainda gosto... ah se gosto! Fico amando e amando, sem sentir saudade!''. Mirandolina diz que faz amor ''de diversos tipos'', todos os dias da semana. ''É sábado, domingo, segunda, terça e por aí vai.'' Os netos se envergonham; o marido reforça - Não há o que pare essa mulher, diz. Que bom que o teu não parou, retruca Mirandolina. O vigor é de impressionar.

A título de exemplo, ela levanta os dois braços e aos poucos arca a coluna enquanto desce até a ponta dos pés e encosta neles os dedos das mãos. Num sobressalto, volta à posição original para iniciar uma sequência de polichinelos. Ela pára quando, mentalmente, a minha contagem chega em 100.

Aos 20 eu era sedentária, conta. Hoje, continua, sou sexo à flor da pele. O marido ri, contrariado - Não gosto de intimidades, assim, escancaradas, explica. Ela, sim, gosta e, depois de descobrir a Internet, criou um blog em que descreve suas aventuras sexuais e promete, para breve, colocar um vídeo dos dois em ação no Youtube. Explico para ela que o site não permite esse tipo de conteúdo. Mas é didático. E didático eu sei que pode, afirma. É para ser como um livro de auto-ajuda - enquanto faz o comentário, Mirandolina aponta para um volume intitulado ''Sexo na terceira idade: integridade possível''.


Acredito, segue ela, que muitos podem me ter de exemplo. A mulher não morre com a queda dos seios, mas segue vivinha da Silva; pode estar certo. Vou fazer sexo até os 100, daí hiberno e vou-me embora. Exemplo dona Mirandolina dá aos vizinhos. E quando dou, diz manhosa, grito bem alto. Vai ver motiva os jovens que moram aqui do lado a apimentar um pouco. Pobrezinhos fazem tão de vez em quando e, do que sempre vejo da janela da cozinha, sem emoção alguma. Que me escutem e aumentem um pouco o volume de suas paixões.


* Conto originalmente publicado na sessão Histórias do Caderno Curitiba do Jornal Folha de Londrina, do dia 03/09/2008.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Queijo minas frescal com goiabada cascão

Ficção

Refresco de número 04: Tang sabor uva.


Rafael Urban

Equipe da Folha


Foto: Nicole Lima











Eu sei, o Dia dos Namorados já passou faz tempo. Mas com essa não pude me segurar. Imagine um presente ruim. Agora, adicione litros de leite e espere as bactérias fazerem o seu trabalho. Processe tudo até que vire queijo. E então pegue o resultado e dê para o seu namorado de presente. Ta aí o que a Valéria deu ao Jofre: dois quilos de queijo minas frescal.

Eu também quase não acreditei. E perguntei, assim só por perguntar, o que ela deu no Dia dos Namorados anterior. “Ah, no ano passado, eu fiz vinho tinto. Pisei nas uvas e tudo”, me respondeu sem esconder a alegria. Que romântico, pensei. A parte do pisar nas uvas em especial. Mas as idéias esdrúxulas não param aí. “Quer saber dos regalos que dei em anos anteriores? Você sabe estamos juntos há 12.” Bem, a palavra regalo já me assustou e fiquei curioso para saber do que uma pessoa que usa aquele termo seria capaz.

“Em 2006, foi um presente grego”, conta enquanto ri fazendo “hihihi”. Presente de grego foram todos, pensei. “Fiz um jantar à grega. Quebramos pratos juntos até que os vizinhos chamaram a polícia. Quase fomos presos”, diz, completando com o “hihihi”. Ta aí mais um presente emocionante, pensei. “Em 2005, foi a coleção de yo-yos. Achei em diferentes antiquários. Consegui até o Galaxy, aquele da marca de refrigerante e cheio de purpurina.”

Fiquei me perguntando das motivações. O Jofre nunca foi campeão de yo-yo e tinha certa aversão a leites e derivados. De alcoólico, a única vez que vi ele colocar algo na boca foi uma cerveja preta. “Posso continuar?”, disse ela interrompendo meus pensamentos. “Em 2004”, continuou sem esperar eu responder que podia, “foi o mais legal”. Lá vem, pensei. “Eu enchi a banheira lá de casa com sagu de vinho branco. Você sabe o que é sagu?”, me perguntou. Eu sabia que não precisava dizer que sim. “E daí eu e Jofre tomamos banho juntos. Não é romântico?”. Não, não é, pensei sem dizer uma palavra.

Resolvi deixar a corda esgotar. “Um ano antes, em 2003”, sim, 2003, registrei mentalmente enquanto a Valéria hesitava. “Em 2003, não dei presente.” Nessa eu não acreditei. Optei por me fazer de bobo e ficar em silêncio. “Tá, eu conto”, disse ela sem me deixar fazer papel de bobo por muito tempo. “Levei o Jofre no motel”, me disse como se confessando um pecado moral. Por Deus, que fora do padrão do casal, pensei. “Lá tinha um leitão à pururuca nos esperando com uma mesa farta”, completou. Sabia que tinha algo aí, pensei.

E você nunca ganhou presentes, perguntei. “Ah, sempre ganho e são dos bons”, me respondeu. Ah, é, questionei. “Sim”, respondeu. O que ganhou em troca dos dois quilos de queijo minas frescal. “Ah, nessa o Jofre acertou em cheio. Me deu um presente artesanal, que ele mesmo fez na panela”, me disse Valéria. Pinhão, pensei eu. “Foram dois quilos e meio de goiabada cascão.” Ta aí, nada mais provável, Romeu e Julieta.


* Conto originalmente publicado na sessão Ligeiras do Caderno Curitiba do Jornal Folha de Londrina, do dia 18/07/2008.